'Eu sabia que havia algo de errado quando as minhas ordens para o Iraque chegaram no mesmo envelope que a fatura do cartão de crédito da minha empresa petrolífera'.
Tirando os negociantes de armamento suponho que ninguém estará satisfeito com o que se está a passar na zona do Golfo. Nem mesmo os cangalheiros estarão num «mood» favorável, se tivermos em conta as poucas baixas oficialmente comunicadas até à data em que escrevo estas «Palavrinhas».
Esta é, não duvidamos, uma guerra de raiz eminentemente económica, comandada pelo «Senhor Cifrão» enroupado com odores petrolíferos e travestido sob uma capa de solidariedades internacionais e outros valores que tais. De parte a parte.
Brinca-se com o fogo? Penso que sim. Se há coisas incontroláveis, a guerra é, historicamente, uma delas. Sabe-se, geralmente, como começa, mas o termo é uma enorme e, por vezes, horrorosa incógnita. Assim sendo, esta Guerra é mais perigosíssima brincadeira, cujos resultados são ainda indefiníveis. A Humanidade, esse obscuro conceito mais abrangente ainda que a bem conhecida camada de ozono, está, mais ou menos, globalmente perplexa perante o autêntico bombardeamento informativo do conflito. «Liga aí a Televisão para ver como vai a guerra!» frase impensável anos atrás, hoje mais comum do que «Vai à vizinha pedir emprestada a varinha mágica!». Sinais dos tempos e da força mediática da actualidade.
Apesar de toda esta facilidade de consumo de informações, não podemos, de nenhuma maneira, ignorar o valor daqueles jornalistas que lá estão, em plena zona de acção, a ver, ouvir e transmitir, tudo o que lá se passa, última palavra da «moda bélica». Como Fernando Pessa, velho dinossauro da informação de guerra, a esses profissionais da informação tiro o meu chapéu.
Nuno Barbosa,
Espinho Vareiro, 25 janeiro 1991.