Não levanto as saias
Uma empregada de limpeza do Casino de Espinho está ameaçada de despedimento por usar saias compridas.
A empregada, Cândida Faustino, há 21 anos a trabalhar ali, está a ser alvo dum processo disciplinar por usar saias mais compridas do que a bata de serviço, porque «dá mau aspecto» segundo a encarregada do pessoal. A D. Cândida desceu a bainha da bata «para não arranjar chatices a ninguém», mas a encarregada mandou-a para casa nesse mesmo dia. No dia seguinte quando se apresentou para trabalhar foi impedida de marcar o ponto pelo porteiro do casino, que a informou que estava dispensada. Então dirigiu-se ao zeloso chefe do pessoal Manuel Freitas que confirmou a sua suspensão e que ia receber uma carta da empresa sobre o assunto. A carta era uma nota de culpa acusando-a «de violar de forma grave os deveres de obediência, respeito e disciplina».
Cândida Faustino dirigiu-se, então, à delegação do Ministério do Trabalho no Porto, onde contou o que se passava. «As pessoas que lá estavam desataram a rir e aconselharam-me a procurar um advogado».
Nova carta foi recebida pela funcionária a comunicar-lhe que tinha sido punida com cinco dias de suspensão. Aconselhada pelo advogado do Sindicato de Hotelaria do Norte contestou a nota de culpa, e voltou a apresentar-se ao trabalho apesar de na nota de culpa insistia que não devia usar saias mais compridas que a bata e acusava a funcionária de ter respondido à encarregada «que não mostrava o cu e que se quizesse que o mostrasse ela».
O repórterdo «Tal & Qual» ouviu o zeloso chefe do Pessoal sobre este caso que disse que «as saias compridas que ela usa dão mau aspecto». Porquê?«Num rebanho de ovelhas brancas fica mal ter uma de cor diferente» — disse. Quanto à punição garante que se ficou a dever ao facto da funcionária ter reagido com « palavras impróprias». Agora Cândida Faustino marca o ponto mas não a deixam trabalhar, mas reafirma que vai continuar a usar as saias que já usa há mais de 20 anos.
Espinho Vareiro, 5jan1996
