TASCA PIROLITO (56)

TASCA PIROLITO (56)
in Espinho Vareiro 5 de janeiro de 1996


Querida tia Bizantina,
Quando li a sua carta, fiquei preocupado com a descrição que a Tia fez dos rigores do vosso inverno. Mas depois do que vi na televisão, olhe que houve muita desgraça por esse mundo for a - na África do Sul, nas Filipinas, na Escócia, na Básnia.
Por cá também tivemos a nossa dose. Houve desmoronamentos de prédios velhos, Águeda ficou isolada e houve descarrilamentos de comboios devido a aluimentos de terras. Quem ficou contente foi o pessoal do Alentejo, que já não via água há três ou quatro anos.
Aqui em Espinho a passagem subterrânea que liga os parques de estacionamento a norte à praia ficou inundada. Felizmente que não houve prejuízos para ninguém porque aquilo foi feito para os turistas e agora não os temos. Prejuízos teve o casino, com uma porta de vidro metida dentro com toda a ventania que fez. O mar também tem estado alteroso. Já se passeia à vontade por cima do paredão e já entrou mais uma vez nas casas de banho da beira mar. A D. Viperina diz que é bem feito, já que elas só estão abertas durante o verão, para os de fora, e que agora são inúteis porque estão sempre fechadas, mesmo nos fins de semana. Fiquei também espantado com o que a Tia disse sobre a falta de segurança na construção civil aí, de os mexicanos andarem a trabalhar sem luvas, sem capacetes, sem viseiras. Acontecer isso no país que tem a mania de ditar leis ao mundo tem muito que se lhe diga. Parece que chegou agora a vez da América imitar o Terceiro Mundo.
Por falar em obras, as do casino daqui foram apressadas ou abreviadas por causa da inauguração com toda a pompa de ministros e alta sociedade que veio para a fotografia. Logo depois da cerimónia, os trolhas voltaram a colocar uma grua no meio da avenida e andaimes na fachada norte. O braço da grua está arreado e uma velhota já deu uma valente cabeçada. Quem está contente com isso é a grandulagem—outra palavra nova que aprendi — que às tantas da madrugada se põe a jogar boxe com o gancho da bola da grua. Segundo a vizinha D. Viperina, parece que o empreiteiro da obra do casino se tinha esquecido de colar painéis de granito nos laterais das colunas. Só que, também aqui, o mau tempo, com chuva e muito vento, não tem facilitado a dificílima tarefa dos coitados pobres dos trolhas.
O despedimento de funcionários públicos aí tem-me preocupado. Não há direito que a oposição republicana, a tal que em tempos andou a fazer, entre outras coisas, a guerra do Vietname e a do Golfo, venha agora dizer que não há dinheiro e, no Congresso, vote contra o orçamento dos democratas e amigos do Clinton. Museus e bibliotecas fechados, parques nacionais encerrados, isso não se faz.
Por aqui a oposição e os media a reboque dela andaram a fazer uma barulheira dos diabos por causa de meia dúzia de dispensados — palavra nova que aprendi recentemente e que quer dizer, em linguagem politicamente correcta, despedidos —, por causa do fecho de algumas portagens de auto-estrada. E criticaram o governo socialista por isso. Só que se esqueceram que quem tinha despedido não fora o governo mas sim uma empresa, uma das tais que é privada com capitais do Estado e que se tem gabado do seu grande sucesso.
Ainda sobre despedimentos, o que tem dado que falar por cá é uma mulher de limpeza do casino que foi suspensa por não querer levantar a barra da saia que costumava usar por baixo da farda e que é mais comprida do que a farda. Desobediências e faltas de respeito é o que os patrões do casino não toleram. Por isso, pimba, suspensão que é para aprenderem a respeitar os regulamentos e os legítimos superiores.
Por agora é tudo. Espero que a Tia tenha um Ano Novo muito feliz, desejo que estendo às Primas e ao Sr. Perry.
Um abraço para todos,
O vosso sobrinho,
Speakeasy