DEUS E O PRESIDENTE


«Deus existe / Tudo o prova / Tanto tu altivo Sol / Como tu, raminho humilde / Onde canta o rouxinol» Começo estas «Palavrinhas» com esta profundota quadra do insigne conde de Abranhos, prodigiosa figura criada pelo fabuloso Eça de Queiroz. Quadra que, confesso, é arrasadora para os ímpios e incréus. Poderá alguém, de boa fé, resistir a tão sólido argumento, via rouxinol e raminho? Estou em dizer que não.

No entanto, achega irrefutável para a comprovação da Divinal existência foi aportada pelo Presidente da Câmara de Espinho em entrevista debitada ao «melhor semanário espinhense» e estou a citar o autarca). Li, a dado trecho, que o Presidente diz que trouxe uma coisa para esta abençoada terra e que ela não disfrutava desde 1930 – um areal. Mas, questiona o edil, há quem diga que tão prodigioso milagre é obra de Deus. Benignamente, reconhece que, a haver intervenção Divina na matéria, ela se resumirá ao facto de Deus ter iluminado as mentes daqueles que, com o seu voto, permitiram ser ele o ocupante do majestático cadeirão. Forte raciocínio! Dedução ofuscante!

Se ainda pertencesse ao número dos vivos, José Maria Eça de Queiroz ver-se-ia forçoso e obrigatoriamente compeido a dar ligeiro retoque ao viçoso poema que pôs na pena do Conde de Abranhos. Qualquer coisa como isto: «Deus existe! Tudo o prova / Tanto tu, força eleitoral / Como tu, extensão nova / Que é este imenso areal!».
Termino reafirmando a minha confiança neste País.
Nuno Barbosa
Espinho Vareiro, 17 de fevereiro de 1989.