MANUEL LARANJEIRA - 80º ANIVERSÁRIO DA SUA MORTE


Faz em 12 de Fevereiro 80 anos que Manuel Laranjeira, médico escritor, se suicidou com um tiro de pistola. Brilhante espírito da época, sempre polémico, embora por vezes contraditório, Manuel Laranjeira conviveu com artistas como Amadeu de Sousa Cardoso, Teixeira de Pascoaes, João de Barros, António Patrício, António Carneiro e Miguel Unamuno.

A sua memória tem-se perpetuado através de simples homenagens prestadas pelos seus admiradores, nomeadamente dando o seu nome ao antigo Liceu. A Câmara Municipal prevê a partir daquela data, a realização de uma série de iniciativas em sua homenagem na sequência de uma proposta do PS aprovada na Assembleia Municipal de 27 de Junho de 1991. O « E.V.» associa-se à efeméride.

VIDA E OBRA

Nascido em Vergada, Vila da Feira, em 1877, Manuel Laranjeira conclui o Curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1904. No ano seguinte vê «As Feras», drama em um acto, ser lavado à cena, e em 1906 participa nas conferências da Universidade Livre do Porto onde divulga as modernas ideias políticas, sociais e científicas.

Em 1908 fixa-se em Espinho, onde exerce clínica e mantém prolífera actividade como periodista e escreve «Diário Intimo». É, entretanto, eleito Presidente da Comissão Municipal Administrativa de Espinho e exerce o cargo de Administrador do Concelho. Em 1909 rompe com Augusta, companheira e confidente dos seus infortúnios.

Entretanto, a tuberculose, o tabes e a sífilis atormentam-no e delibitam-no física e mentalmente. Intervém em 1911 no Teatro Aliança sobre a protecção da costa e, em Janeiro do ano seguinte, um mês antes de pôr termo à vida, pública «Comigo — versos dum solitário».

CITAÇÕES

- AMIZADE: «A amizade, como o amor, é uma forma de egoismo. Um homem nunca é amigo de outrem senão pelas vantagens que lhe advêem dessa amizade». (in « Diário Intimo»); «Que me importa como os outros me julgam? O que me importa é como me julgo eu. De resto isto é bom: serve para criar na minha consciência o direito de mandar os amigos à merda.» (ibidem); «Os amigos... Quem são os amigos? uns sujeitos que às vezes se lembram de se sentir por nós, de pensar por nós, de ser virtuosos por nós, de ser práticos por nós e até de duvidar de nós. Mas eu não conheço nada pior do que um amigo! Mas ninguém deve dar a outrém o direito de ser nosso amigo. Dar a alguém o direito de ser nosso amigo é permitir-lhe que nos perturbe o espírito, os pensamentos, os sentimentos, as intenções, as palavras... Amigos meus — só eu. Conceder que os outros o sejam é abdicar estupidamente de mim, para estar tranquilo, em paz connosco, não há como sentir na consciência o direito indestrutível de mandar os amigos à merda.» (ibidem); «Eu pergunto a mim mesmo com que direito os amigos me enxovalham e acabo por reconhecer para mim mesmo que enxovalham com o direito da sua estupidez. É um direito a estupidez, talvez o mais inalienável dos direitos. Que profundo asco me estão causando os amigos!» (ibidem).

- ESPECTADOR: «Eu sou um homem que goza muito em ser espectador de si mesmo, e que se arrepia com a ideia de que os outros o vejam.» (in carta a João de Deus Ramos).

- ESPINHO: «Sobre Espinho está caindo uma bruma pesada, parda, e no meu espírito está-se formando uma névoa gris, fria, álgida, húmida—como tédio, este céu imóvel como a tampa duma imensa sepultura, se nos deixa respirar os pulmões, não nos deixa respirar a alma.»

- JUSTIÇA: «Onde a caridade existe, não existe o sentimento da justiça. A justiça não é calar a miséria: é não a fazer. A caridade, calando a boca da miséria, abafa pela corrupção a voz de um direito.» (in « Prosas Perdidas»)

- MEDO: «O medo é o pudor dos pulhas.» (in « Diário Intimo»)

- MULHER: «Apesar de tudo há mulheres que tiveram o mau gosto de me fazerem declarações de amor.» (ibidem); «A ironia de uma mulher entristece-me. Primeiro, porque é insípida, segundo porque é invejosa, terceiro porque não é inteligente, quarto porque significa um ódio — feminino, é claro — à vida, que não esteve para as aturar, quinto porque é ódio da sensualidade insatisfeita, sexto, porque é o ódio das solteironas que no mundo só amam certa espécie de cães, que sabem substituir homens.» (ibidem); « Nas mulheres a vaidade é tudo. Apaixonam-se por vaidade, atraiçoam por vaidade. Para elas um grande amor é a satisfação duma grande vaidade!» (ibidem)

- PORTUGAL: «Vou ver se consigo fugir deste Portugal narcótico, e tentar tomar por esse mundo um grande banho de energia que me estimule a dar fruto também.» (in carta a António Carneiro de 9.10.1906); «O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre a maioria não é educada.» (in « Pessimismo Nacional»); «Quanto à minoria ilustrada, como não há-de ela ser pessimista, se se sente isolada, inutilizada, nesta atmosfera de ignorância? Se sente triunfar apenas a escória mental e moral da raça portuguesa.» (in «Prosas Perdidas»); «Como me está pesando, com o peso do tédio, ser republicano, — ser português. Porque é que os homens não hão-de ser simplesmente homens, sem nacionalidade?» (in « Diário Intimo»)

- VIDA E MORTE: «Neste momento não sinto desejos de morrer, mas a possibilidade de morrer em breve deixa-me insensível como se se tratasse do facto mais banal e insignificante.» (in « Diário Intimo»); «Não tenho pena dos que vão, tenho pena dos que ficam. Os mortos não me comovem, comovem-me os vivos. Tenho a impressão de que não é um cadáver que se enterra, mas sim algum pedaço de alma de um vivo.» (ibidem); «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.» (in « Cartas»); «Mãe — é um desejo esquisito este meu: plante uma roseira sobre a minha sepultura. Depois, quando me quiser falar, vá lá beber o perfume das rosas: que esse perfume é a minha alma.»
Octávio Lima, 
Espinho Vareiro, 7 de fevereiro de 1992.