O NARCISISMO DO PRESIDENTE


A entrevista em causa parece um exercício psico-patológico de autojustificações, de ameaças, de desculpas, que em termos substantivos, tentam, sem contudo manifestamente o conseguir, exorbitar e descarregar sobre outrém incapacidades, debilidades próprias.

Mais o aspecto, talvez mais significativo, seja a relevação de um certo narcisismo, que apear de tudo merece alguma ponderação. Desde logo porque postula um reflectir de interesses/causas no sentido de preocupacões/justificações puramente pessoais. Falácias como «sou um ganhador», «superiormente inteligente», «super rato» e quejandos, no fundo mais não fazem do que projectar processos de individualização. Constituem a emergência de individualismo e autoeelogio desembaraçado de valores socais, éticos e de manifesta falta de humildade. As afirmações proferidas parecem centradas sobre a realização emocional de si próptio, ávido de juventude, de desporto, de ritmo, menos empenhado no concreto e objectivo e mais na realização / justificação da sua esfera íntima. (…)

E é curioso realçar que de tantas palavras, só um facto é com alguma relevância mencionado e indevidamente. Qual seja a restituição do areal. Manda porém que a verdade se diga, que os termos em que o faz, são inverdadeíros, na medida em que as obras de fundo, essas sim importantes e decisivas para o evoluir de toda aquela vasta área, e para a cidade, foram outros que pore las se bateram e que conseguiram a sua materialização. Quando o sr. chegou à Câmara já a casa estava feita. Quando muito, conseguiu que lhe fossem dados alguns retoques. O seu a seu dono. Sobre tudo o mais, aos costumes disse nada: Não é necessário repescar o seu programa eleitoral e verificar a distância entre o prometido e o efectuado.

A sua passagem pela Câmara, que queira quer não, não teve chama, ideal, objectivos. Foi um interregno, que o tempo, as nossas tradições, ou passado, concerteza não vão permitir sejam perdidos o sentido da continuidade, do futuro, da posteridade.

Para si, a culpa parece ser dos outros, jornais, Assembleia Municipal. É uma resposta desculpabilizante. E os termos em que se refere à Assembleia Municipal são no mínimo de desconsideração, desprezo, descaracterização. Enfim cada partido é o que é e tem os responsáveis que tem. Em qualquer parte ou país civilízado esta sua atitude seria grave e poderia ter outras consequências. Mas as coisas são o que são. (…)
Espinho Vareiro, 17 de fevereiro de 1989.