Não vamos perguntar quem teve a inaudita ideia de nos focar a vista, pensamento, espírito até ao âmago da alma e do coração com os majestosos painéis que abrem a escadaria do túnel da rua Bandeira Coelho.
Permita-se que classifique esta obra com com o objectivo impovente que é o melhor que nos veio à mão neste preciso momento, por ser o mais real e exacto para classificar o deslumbramento a que nos transportam aquelas páginas. E não são meras criações de fantasia.
Naqueles painéis deslumbram-se carinhosas páginas autênticas da História de princípio de século de Espinho. São o melhor testemunho de que já nessa época a nossa praia dizia, erecta e personalizada, o que viria a ser a espinha dorsal da sua estrutura.
Essas fotografias de trechos descritos no azulejo são o melhor Ex-Libris desta cidade que logo se parturejou grande. Podemos mesmo dizer que nasceu no próprio futuro.
Ali está patente sem manchas nem rugas, moderno e jovem, o tal Espinho-mãe, pai ou irmão gémeo desta cidade, de progresso invicto. Terra de recordações saudosas, infindas, que herdamos testemunho que vem sendo legado através das gerações.
Ali ficam retratos daqueles que honrosamente chamamos Nossos Maiores.
Por isso, ao passarmos ali, somos levados ao recolhimento do nosso pensamento e, instintivamente, fazermos respeitosa vénia para não dizermos sagrada. Porque, passar sem essa curvatura da cerviz, seria o mesmo que negarmos o nosso espinheirismo àquele passado sempre presente. Perdoaríamos as cabeças vazias, mas não desculparíamos corações ingratos.
Talvez pretendam aqueles retratos abanar as memórias curtas para dizer o que Espinho espera de cada dos seus cidadãos.
Não escrevemos estas linhas para festejar de laureados parabéns o Senhor Romeu Vitó.
Obra radiosa! Padrão reguido ao Espinho de todos os tempos.
Também aqui cabe uma referência elogiosa a todo o corpo autárquico que colaborou com ele.
Que nos desculpe o Senhor Óscar por também não felicitarmos com parabéns o seu dinamismo ferrenho por Espinho.
Mas premiamos com mais alto penhor o Povo de Espinho por ter eleito tão dignos representantes para a gerência desta freguesia, que, afinal, produziram obra de nível concelhio, ou, melhor ainda, a nível do Turismo Nacional.
Senhor Romeu Vitó! Invejo-o pela obra que aí deixa sujeita às intempéries dos bons e dos maus olhados, obra de que eu e outras cabeças melhores do que a minha nunca entrevimos.
Quem realiza obra positiva como esta subscreve a sua própria homenagem.
Depois disto, pode o Altíssimo chamá-lo à sua divina presença, porque a sua missão humana está bem cumprida. Mas nós esperamos mais, agora, como Presidente da Câmara Municipal. Pedimos, pois, que os seus dias se dilatem para que também a sua passagem na Câmara testemunhe o crédito do Povo que o elegeu. Permita-me esta hipérbole: que os ditos painéis sejam o prelúdio da sua dinâmica de Presidente da Câmara. Será pedir de mais?
Aventuro mais um pedido que arrogo mesmo em nome dos que não me encomendaram o sermão, realize o resto da sua obra: mande cobrir as paredes do túnel com fotografias alusivas à História de Espinho. E... não esqueça lavrar acta proibitiva da colagem de cartazes.
Sabemos que é essa a obra que tem consigo, mas a nossa sugestão virtualiza na sua génese. Mas não esqueça a chancela das autarquias.
Desejamos, assim, que estes painéis superem pela realidade os da estação de S.Bento. Porque os nossos não são meros símbolos da imaginação pictórica.
E por aqui nos ficamos roendo a tal pontinha de inveja por aquela obra humana que bem desejaríamos que fosse nossa, só nossa. Está bem?
Fernando Martins Lobo
Espinho Vareiro, 9 de fevereiro de 1990