‘O MAL FOI QUE ESSE SENHOR NÃO SE CONTENTOU EN CRIAR PROBLEMAS NAS EXPROPRIAÇÕES, TENDO, INCLUSIVAMENTE, TENTADO EXERCER SUBORNO COMIGO’, AFIRMOU O PRESIDENTE DA CÂMARA JOSÉ FONSECA*
(…) Tentando averiguar o que de concreto se passava, contactámos o presidente da Câmara de Espinho, José Carvalho da Fonseca, que afirmou:
— Ao tomar posse em Janeiro, encontrei o processo na fase das expropriações, ou seja, já considerado de utilidade pública e com as vistorias feitas… Tendo em vista acelerar a sua realização, inseri-o no Plano de Actividades e no Orçamento, tendo sido aprovado pela Assembleia Municipal. Nessa linha paguei em Fevereiro, 830 contos pelo anteprojecto e passado um mês, adjudiquei ao mesmo arquitecto o projecto definitivo que orçará em milhares de contos e que conto que me seja entregue um destes dias.
Face a estas declarações que mostram que na realidade o processo se encontro encaminhado, perguntámos-lhe que problemas se estão a levantar e por quem, ao que respondeu:
— O que se passa é que, paralelamente à construção do Parque Municipal, um grande industrial de Espinho tentou que o projecto de construção de outro parque, a norte de Espinho, fosse aprovado, o que não aconteceu devido ao facto de o terreno ser atravessado por um rio poluído e ter uma estação de esgotos mesmo no centro. No entanto, a construção está a decorrer clandestinamente, pois como o dono tem grande poder económico, a Câmara tem ‘fechado os olhos’, não interessando, portanto, a esse senhor que o processo avance, utilizando para isso o poder que possui (até porque parte dos terrenos lhe pertencem), incentivando os outros proprietários a não entrarem em acordo amigável, o que de nada lhe adiantou pois mesmo hoje, o processo para as depropriações, entrará em tribunal. Mas ele não ficou por aqui...
Neste ponto, indagámos o que de especial se tem passado, até ao ponto de se afirmar que existe conflito entre os autarcas da Assembleia Municipal, tendo o presidente esclarecido:
— O mal foi que esse senhor não se contentou com criar problemas nas expropriações, tendo inclusivamente tentado exercer suborno comigo. E o certo é que alguns dos membros da Assembleia que, há pouco tempo, eram a favor do processo, agora estão contra, o que, apesar de não ter gorado o processo, dividiu a Assembleia.Municipal. Certa Imprensa tem divulgado a preparação de uma segunda «Mealhada», pelos partidos de Esquerda, não passa tudo de mera especulação, pois, pelo contrário, os autarcas do PS e da APU são a favor da realização do projecto. O mal é que se tente instrumentalizar as pessoas e ainda exista quem ache que «os fins justificam sempre os meios».
Dentro deste contexto, pedimos ao presidente que fizesse uma previsão do futuro, ao que anuiu e disse: — Sei muito bem que apesar de o processo estar praticamente no tribunal, os problemas não acabaram e que ainda vai ser levantada muita oposição. Supondo que o projecto venha a ser parado, eu só pergunto: que acontecerá do poder local?
* in Entrevista concedida ao conceituado diário «O COMERCIO DO PORTO», que pela sua actualidade se transcreve.
Espinho Vareiro, 6 de fevereiro de 1981.