Querida Tia Poupança,
Há que tempos a gente não se escrevia! Gostei imenso da sua cartinha que me veio matar saudades. Como o tempo passa... e a gente não dá por ela.
Novidades por aqui não há muitas, que o trabalho é muito e não dá para andar à conversa. Também ainda não conheço muita gente, só os que trabalham comigo e não são todos, que eles andam sempre cheios de pressa e só dá para saber de que clube de futebol é que são. A semana passada escrevi à Prima Alienação. Se ela ainda não recebeu a carta, deve estar a recebê-la. Pelo que tenho visto na televisão de cá isso por aí tem estado muito mau, com muito sinó (aqui diz-se neve) e é talvez por isso que os carteiros levam mais tempo a entregar as cartas.
Pois é, minha querida Tia, estou-me a habituar a isto. Mas não é fácil porque as coisas aqui são mais pequeninas, as pessoas parece que pensam pequenino, eu sei lá, é difícil de explicar por carta. E depois vejo certas coisas que ainda não percebo. E o problema não é da língua. Por exemplo, o outro dia fui a uma piscina pública. Um regalo, água salgada, aquecida e tudo, uma maravilha especialmente de Inverno. Consolei-me a dar umas braçadas. Pouco tempo, que nunca gostei de estar muito tempo dentro de água. Depois fui para o balneário. Fui para o único chauer (aqui diz-se chuveiro) livre, que os outros estavam todos ocupados. O problema é que não havia maneira da água sair quentinha. Primeiro pensei que as caldeiras estavam avariadas, mas depois reparei que não devia ser isso porque olhei para o lado e vi o pessoal a ensaboarse com a água sempre a correr. Acabei por tomar o duche com a água quase fria. Fui para a cabine e vesti-me. Quando ia a sair, já todo vestidinho, reparei que a maior parte daquele pessoal ainda lá estava debaixo da água. Credo, com todo aquele tempo até parece que não tomavam banho há que anos, e sempre com a água a correr. Depois era cada palavra mais malcriada, que a água não havia maneira de aquecer, que isto, que aquilo, presidente abaixo, presidente acima, não deu para entender lá muito bem, que de políticas não percebo nem me quero meter nisso.
Quando saí, havia uma confusão dos diabos, com licença. Não percebi muito bem, mas parece que era tudo por causa de um carro que estava estacionado numa rua estreita, mesmo junto à parede da piscina e num lugar proíbido. Ouvi dizer que o carro estava mesmo à frente do portão de uma garagem e que os donos da casa queriam sair com o carro deles mas não podiam por causa do dito carro parado quase no meio da rua. Chamaram a Polícia e ela não multou o carro mal estacionado. Parece que ajudaram o casal a tirar o carro da garagem a peso, à mão. Ao perto estava o arrumador de carros a gozar a cena. E ninguém se meteu com ele, que ele parece mesmo um daqueles brutamontes que costumava aparecer nos filmes do Bud Spencer.
Bem, por agora é tudo, que a carta já vai grande. Beijos e abraços para a Tia, para o Tio e para as Priminhas. Recomendações também aos vizinhos. O seu sobrinho que muito a estima,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 25 de fevereiro de 1994.