Querido Speakeasy,
Espero que estejas bem de saúde. Desculpa mais uma vez não te responder mais depressa. Tens razão em queixar-te porque, coitado, foste para aí sozinho, ainda conheces pouca gente e achas que a gente devia escrever-te mais vezes. Pois olha que aqui ninguém se esqueceu de ti. As tuas cartinhas são lidas muitas vezes. Às vezes dou-as a ler às vizinhas, que elas são como se fossem da família e querem o teu melhor.
Achei piada ao que me contaste da política daí que tu tens seguido na televisão. Tu dizes que até parece as primárias daqui, com os candidatos de um partido a aparecer duas e três vezes por dia a dizer que são os melhores. Mas diz-me uma coisa: aí agora há primárias como aqui? Cá não soubemos de nada. Pelo menos os canais de televisão não disseram nada e tu bem sabes quantos canais temos aqui, não é como aí. Mas se é assim, a nossa rica América é que tem razão. Além disso, os da televisão sabem-na toda. Aproveitam, como bem sabes, as primárias e de cinco em cinco minutos passam reclamos.
Sabes que uma marca de laranjada teve a lata de se gabar de ter feito não sei quantos biliões de dólares de vendas da dita laranjada durante as últimas primárias!? Aí também estão a fazer reclamos assim? Conta-me mais coisas sobre esse PLEC, processo de laranjização em curso. Na tua última carta pareceste muito pouco animado, falaste de ratos a abandonar o navio que ía ao fundo, mas eu não percebi muito bem onde querias chegar. De qualquer maneira, não vale a pena arreliares-te com aquilo a que chamas intoxicação da televisão portuguesa. Porque aqui há muitos canais, mas é tudo uma grande ilusão. Dão todos a mesma coisa, boxe, westerns, talk shows, sitcoms, uma bodega que às vezes o melhor é desligar o aparelho.
Mas essa intoxicação da laranjada, como tu dizes, talvez não seja tão má como a que agora estamos a sofrer. Imagina termos que aguentar, de manhã à noite, o julgamento do Simpson, aquele preto que apanhou a mulher com o amante na cama e matou os dois. Sinceramente, acho que apesar de tudo, parece que por aí há mais bom senso, apesar de, como tu dizes na tua carta, alguns jornalistas acharem piada ao julgamento do Simpson e tentarem impingir isso por aí, quando ele nunca foi sequer jogar uma única vez a Portugal. Ninguém o conhece aí mas têm que o aturar, também não sei onde está o interesse.
Bem, tenho que ficar por aqui, que isto está a ficar longo. Continuação de boa saúde e muito sucesso no teu trabalho são os nossos melhores votos. Quando é que vens cá passar uma semana, pelo menos?
Saudades da tua Bizantina.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 10 de fevereiro de 1995
