TASCA PIROLITO (38)

Querida Alienação,

Foi muito bom receber uma carta depois de um longo silêncio da tua parte. É excelente saber que está tudo bem e que a unha encravada já foi desencravada sem qualquer problema.

Dizes que já não aguentas mais o julgamento do OJ Simpson. Pois olha que para quem está há pouco tempo por cá, como eu, e não percebe nem quer perceber de partidos, estes últimos quinze dias não foram melhores. Foi um fartote — estaé uma palavra nova que aprendi com a minha nova e simpática vizinha Viperina — foi um fartote com o congresso de um partido. De manhã à noite foi um fartote de palpites, de comentários, de trivialidades sobre os concorrentes a bossas do partido. Até parecia que era o acontecimento do século por cá. Acho que estes Portugueses andam a copiar depressa e bem o que nós Americanos fizemos há bastantes anos atrás, que para a frente não podem ser. Espero que quando chegar a vez dos congressos dos outros partidos os media dediquem a atenção proporcional às percentagens das votações electrónicas ou reais. Pelo menos é o que costumava acontecer por aí, não é verdade?

Pois todo este chinfrim — outra palavra nova que aprendi com a vizinha Viperina— todo este chinfrim conseguiu desviar a atenção do pagode — outra palavra que a vizinha Viperina me ensinou — de uma série de caixotes cheios de granadas que têm dado à costa nas últimas semanas. Tudo depois da Marinha afundar um velho navio de guerra cheio de explosivos, lembras-te? Primeiro, afundaram o barco mas foram dizendo que era tudo invenção dos media. Depois, que remédio, admitiram ser verdade. Mas meteram os pés pelas mãos sobre o tipo de explosivos — letais ou não — que estavam no barco que fora afundado. Depois foi toda aquela água que o ministro da guerra meteu dizendo que não sabia de nada. Coitado, sempre o último a saber! Isso não se fazia, que ele não merecia. Enfim, coisas da política que, como bem sabes, não sabia aí nem quero saber por aqui.

Por cá o mar tem feito das suas. Imagina que lhe deu na veneta e veio por cima dos paredões, rebentou parte deles, revolveu praias, levou areia de um lado para o outro, quase atravessou uma avenida! As praias ficaram todas sujas, claro que com o lixo dos outros lados que por aqui todos somos muito limpinhos excepto alguns cãezinhos que só gostam de cagar — outra palavra que aprendi da Viperina— na Rua 19, porque se fosse nas outras ruas ninguém se queixava. Obviamente as praias não podiam ficar sujas daquela maneira. Vai daí e houve alguém que contratou um tractor para as lavrar e enterrar o lixo todo. Os de fora não podiam ver aquela sujeira! A minha vizinha Viperina disse-me também que foi preciso uma bomba para tirar água do mar que tinha entrado numa garagem subterrânea e numas casas de banho também subterrâneas, mas parece que mais ninguém ouviu falar do caso.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a maneira de podar as árvores por estes lados. É cada poda de caixão à cova, como diz a minha vizinha Viperina. Quase que fica só o tronco. E ai daquele que tenha dúvidas sobre a técnica de podar dos técnicos formados pelas Universidades de Anta, Espinho, Guetim, Silvalde, Paramos e arredores. Apanha uma repreensão deste tamanho, que é melhor nem sair à rua. Olha, vou ficar por aqui, desejando a continuação de uma muito boa saúde. Não te esqueças de dizer aos amigos e vizinhos que também penso neles e lhes envio, por ti, as minhas recomendações.

Teu,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 24 de fevereiro de 1995.