TASCA PIROLITO (58)


Querida Tia Bizantina,

Espero que esteja bem e que tenha recuperado de todo o sinó e frio que fez para aí. Espero também que as Primas estejam bem e que os vizinhos da Main Street já tenham acabado as obras de recuperação de metade da casa depois da queda da árvore devido a tanto vento. Isso é que foi mesmo um grande azar. Espero que ninguém tenha sofrido nada. Por cá a chuva amainou e o sol voltou. Está bastante forte, mas quando se vai para a sombra é que são elas, arrefece bastante. Eu até já andei com o ouvido direito bastante mal, e já tive tosse. Fruta da época, diz a vizinha D. Viperina.

Pois gostei imenso da sua carta de Janeiro e das novidades do «politicamente correcto». Por cá ainda não tinha dado conta das pessoas usarem essa linguagem. Não sei se é pela língua americana ter palavras mais curtas do que a portuguesa, ou se é por eu ainda não dominar bem o português. O certo é que ainda não tinha descoberto nada.

O outro dia quando fui às compras encontrei a D. Viperina e aproveitei para lhe perguntar se ela sabia o que era isso de «politicamente correcto». Ela disse-me que tal nunca houvera ouvido. Disse-me que ultimamente aqui em Espinho, e, claro, em Portugal, tem aparecido uma série de atitudes esquisitas, mas que a nível de linguagem politicamente correcta, nada. Explicou-me que, por exemplo, a expressão «trabalhos a mais» entrou na moda. Explicou-me que isso de «trabalhos a mais» não é mais nada senão dinheiro a mais que um empreiteiro exige para acabar uma obra que foi a concurso e ganhou esse concurso pelo preço e pelas condições que o interessado achou melhor. Se se considera «trabalhos a mais» uma expressão «politicamente correcta» para substituir «azelhice» e outras palavras terminadas em «-ice», isso a D. Viperina não sabe. Ela também não tem a certeza se «flexibilidade política» ou «agilidade política» ou «versatilidade política» é agora a expressão politicamente correcta para designar alguém que um dia diz uma coisa e no dia seguinte diz outra, mesmo o contrário, aquilo a que os velhos chamavam «trocatintas».

Reparei, entretanto, que na televisão andam a brincar e a provocar os novos dirigentes socialistas com uma expressão inglesa, «jobs for the boys». Disse-me a D. Viperina que isso não é mais do que «tachos para os do poleiro». É interessante verificar que alguns jornalistas portugueses só agora tenham descoberto esta expressão e nunca a tenham usado durante os últimos dez anos. Disse-me a D. Viperina que foi o Mota Amaral que trouxe essa dos «jobs for the boys» para cá. Ela também me disse que o Natalino Viveiros tinha sido um dos «boys» dele, mas que se tinham zangado, de modo que ele tinha vindo para cá para não ter que ir para a cozinha lavar todos os pratos e tachos que andou durante vinte anos a distribuir bem cheios pelos «boys» dele.

E por falar em língua, acabei por comprar um bom dicionário. Foi a D. Viperina que me aconselhou. Por sinal da mesma editora do dicionário que o filho tinha usado quando andava a estudar. Eu andava há já bastante tempo para comprar um e fui adiando. Mas o outro dia assisti a uma conversa que me apressou. Era tudo à volta de « argo» e de «praça». Como fiquei na mesma, com os dois espinhenses a falar ao mesmo tempo e a tentar explicar a diferença entre uma coisa e outra, comprei. Diz o dicionário que um « largo» é uma pequena praça. E que uma «praça» é um largo cerca do de edifícios.

Mas agora parece que não é bem assim, porque mandaram fazer obras e pôr cubos e paralelipípedos num largo e devido a isso, diz um inteligente com muita influência cá em Espinho, o largo vai passar a ser praça. E tudo muito baratinho, só 42 mil contos, para já, mais seis mil de trabaIhos a mais. No meu dicionário, dentro de «largo» encontrei «ao largo», «gastar à larga», «passar de largo», «Largo de Haendel», pouco mais. Já dentro de «praça» encontrei «praça de taxis», «praça de touros», «praça de peixe», «ir à praça», «assentar praça», «praça-forte», «carro de praça», «praça pública», «boa praça»... Como a Tia vê, ando a aprender bastante com este novo dicionário.

Por agora étudo. Um grande abraço para si e para as Primas. Recomendações ao Sr. Perry.

Seu,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 23 de fevereiro de 1996