Caro sobrinho,
Foi um prazer receber a tua cartinha e ler todas as novidades fresquinhas daí. Fizeste bem em comprar o tal dicionário. Pelo que vejo dás-te muito bem com essa tua vizinha, a D. Viperina, e ela explica-te muita coisa que não percebes. Mas um dicionário sempre é outra coisa. Provavelmente ainda não explica o que são «trabalhos a mais» porque, como dizes na tua carta, isso é uma moda nova, de modo que eles ainda não decidiram incluí-la. Mas não deve tardar muito, pois, como dizes, isso pegou bem por aí.
Pela descrição que fazes, também temos cá «trabalhos amais». Mas a gente não precisa de andar a disfarçar as coisas com palavras enviesadas. Aqui usa-se a expressão «reajustamento ou reapreciação de orçamento» e sobre isto ninguém tem dúvidas. Toda a gente sabe que quando se fala em reajustar ou reapreciar um orçamento que é para ser mais caro, não é para trabalhar ou fazer mais coisas, pois o projecto tem lá tudo e foi aprovado. Se fosse para alterar, falava-se de alteração e aí, sim, falava-se de mais trabalho. Mas isso são coisas com que vocês têm de se entreter por aí. E acho bem que não te metas em políticas. Eles que se entendam.
Também achei emocionante essa dos rapazes socialistas andarem preocupados com os «jobs for the boys». E com razão, coitados. Então os laranjas, como vocês dizem, tiveram dez anos na capoeira e estes não podem estar pelo menos quatro? E não podem gozar do mesmo aconchego? Onde está a democracia? Aqui isso sempre aconteceu. Toda a gente sabe que quando os Republicanos ganham levam para lá os amigos e quando são os Democratas a ganhar fazem o mesmo. De modo que, nas alturas de limpeza à capoeira, é vê-los carregar com caixotes de papelão cheios de bugigangas acumuladas durante o tempo em que estiveram no poleiro. São as fotografias das mulheres e dos filhos, são as pinturas oferecidas pelos «lobbies», são computadores portáteis, são telemóveis, eu sei lá que mais. A nossa televisão dá essas cenas em directo. Até se diz que é visto por grandes audiências. A novidade que tem dado que falar por cá é a da prisão de um agente da CIA. Dizem que andou anos a fazer espionagem a favor da antiga União Soviética e isso é uma coisa muito feia por cá. Uma coisa não percebo: então o Muro de Berlim, a União Sociética já não tinham acabado há anos? E eu que pensava que só Cuba e a China é que eram os nossos inimigos de agora. Olha, não ligues que eu não percebo nada de política, mas acho que a história está muito mal contada.
Vou ficar por aqui. Desejo que continues de boa saúde.
Tua Tia,
Bizantina
PS - As tuas Primas mandam-te recomendações. O Sr. Perry também.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 1 de março de 1996.