TASCA PIROLITO (79)

EspinhoTV 2023

Querida Tia Bizantina,

Obrigado pela sua última cartinha, sempre cheia de novidades. Foi bom saber que, apesar do Inverno rigoroso que tem feito aí, estão todos bem.

Pois achei a história do Mayor de Filadélfia muito interessante. Com que então ele não tinha mais nada que fazer senão andar a queixar-se do Presidente que não visitou Filadélfia e foi visitar outras cidades, também elas Americanas. Até parece que o Mayor pensa que o Clinton só é Presidente dos Democratas, mas ele foi eleito Presidente de todos os Americanos. E se o mês passado ele foi à Harley Davidson tirar a fotografia, um dia destes há-de ir a outro lado para contentar outros. Palo menos é isso que tem acontecido e não consta que alguma vez algum Mayor tinha tido dor de cotovelo por causa de uma ninharia. «Dor de cotovelo» foi a última expressão idiomática que aprendi e agora uso-a sempre que posso porque a acho muito interessante.

Vi na televisão que o Clinton mandou parar a greve do pessoal da American Airtines. Coisas dessas só podem acontecer aí. Se fosse aqui na Europa, por aquilo que tenho visto, acho que se levantavam todos e quem caía era o Clinton. Estranhei não ver o pessoal da British Airways tomar posição. As duas companhias estão agora unidas no monopólio da exploração aérea do Atlântico e do Pacífico e seria natural o pessoal da congénere europeia tomar posição. A menos que as condições de trabalho para aí estejam muito pior do que aqui. Sobre isto a D. Viperina não me soube esclarecer.

Sobre greves, tem havido muitas e grandes aqui ao lado, em Espanha. Os camionistas espanhóis querem a reforma mais cedo e como o Governo deles não lhes tem dado cavaco, eles não deixam passar camiões e se há fura-greves, eles atiram pedras que partem os pára-brisas ou furam-lhes os pneus. Já há lojas a ficar vazias e fábricas de carros à rasca com falta de peças que vinham em camiões portugueses. A Tia já imaginou se o Clinton fosse dono disto e dissesse, Meninos, não há greve para ninguém, vamos todos trabalhar que eu daqui a dois meses digo-vos como é? Só que aqui não é a América e não há Clinton. Diz a minha vizinha D. Viperina que talvez seja por causa da Europa já ser velha e já ter aprendido muito.

Portugal também é velho e já aprendeu muito. E pelos vistos continua a aprender. Imagine a Tia que a Câmara daqui até já faz campanha pelo Dia de S. Valentim, o Dia dos Namorados. Eu não vi nada de especial que me tivesse chamado a atenção. Mas a D. Viperina disse-me que o Mayor de cá mandou instalar um marco de correio na praça nova, a tal que era largo velho. E vai daí fez um concurso de cartas a namorados, com júri e tudo. A D. Viperina parece que não gostou muita da brincadeira porque, diz ela, isso do Dia de S. Valentim não tem nada a ver com tradições latinas, muito menos portuguesas e espinhenses, que isso é uma modinha lançada há poucos anos e que só interessa aos comerciantes. Diz a D. Viperina que o esforço e o tempo gasto na brincadeira podiam ter sido melhor usados para acabar com os restos da obra da praça nova, a tal que era largo velho.

Bem, por agora é tudo. Votos de continuação de uma muito boa saúde. Cumprimentos às Primas e ao Sr. Perry.

O sobrinho que muito a estima,
Speakeasy
Octávio Lima, 
Espinho Vareiro 21 fevereiro 1997.