Querida Tia Bizantina,
Obrigado pela sua última cartinha, sempre cheia de novidades. Foi bom saber que, apesar do Inverno rigoroso que tem feito aí, estão todos bem.
Pois achei a história do Mayor de Filadélfia muito interessante. Com que então ele não tinha mais nada que fazer senão andar a queixar-se do Presidente que não visitou Filadélfia e foi visitar outras cidades, também elas Americanas. Até parece que o Mayor pensa que o Clinton só é Presidente dos Democratas, mas ele foi eleito Presidente de todos os Americanos. E se o mês passado ele foi à Harley Davidson tirar a fotografia, um dia destes há-de ir a outro lado para contentar outros. Palo menos é isso que tem acontecido e não consta que alguma vez algum Mayor tinha tido dor de cotovelo por causa de uma ninharia. «Dor de cotovelo» foi a última expressão idiomática que aprendi e agora uso-a sempre que posso porque a acho muito interessante.
Vi na televisão que o Clinton mandou parar a greve do pessoal da American Airtines. Coisas dessas só podem acontecer aí. Se fosse aqui na Europa, por aquilo que tenho visto, acho que se levantavam todos e quem caía era o Clinton. Estranhei não ver o pessoal da British Airways tomar posição. As duas companhias estão agora unidas no monopólio da exploração aérea do Atlântico e do Pacífico e seria natural o pessoal da congénere europeia tomar posição. A menos que as condições de trabalho para aí estejam muito pior do que aqui. Sobre isto a D. Viperina não me soube esclarecer.
Sobre greves, tem havido muitas e grandes aqui ao lado, em Espanha. Os camionistas espanhóis querem a reforma mais cedo e como o Governo deles não lhes tem dado cavaco, eles não deixam passar camiões e se há fura-greves, eles atiram pedras que partem os pára-brisas ou furam-lhes os pneus. Já há lojas a ficar vazias e fábricas de carros à rasca com falta de peças que vinham em camiões portugueses. A Tia já imaginou se o Clinton fosse dono disto e dissesse, Meninos, não há greve para ninguém, vamos todos trabalhar que eu daqui a dois meses digo-vos como é? Só que aqui não é a América e não há Clinton. Diz a minha vizinha D. Viperina que talvez seja por causa da Europa já ser velha e já ter aprendido muito.
Portugal também é velho e já aprendeu muito. E pelos vistos continua a aprender. Imagine a Tia que a Câmara daqui até já faz campanha pelo Dia de S. Valentim, o Dia dos Namorados. Eu não vi nada de especial que me tivesse chamado a atenção. Mas a D. Viperina disse-me que o Mayor de cá mandou instalar um marco de correio na praça nova, a tal que era largo velho. E vai daí fez um concurso de cartas a namorados, com júri e tudo. A D. Viperina parece que não gostou muita da brincadeira porque, diz ela, isso do Dia de S. Valentim não tem nada a ver com tradições latinas, muito menos portuguesas e espinhenses, que isso é uma modinha lançada há poucos anos e que só interessa aos comerciantes. Diz a D. Viperina que o esforço e o tempo gasto na brincadeira podiam ter sido melhor usados para acabar com os restos da obra da praça nova, a tal que era largo velho.
Bem, por agora é tudo. Votos de continuação de uma muito boa saúde. Cumprimentos às Primas e ao Sr. Perry.
O sobrinho que muito a estima,
Speakeasy
Octávio Lima,
Espinho Vareiro 21 fevereiro 1997.