ESCLARECENDO O PASSADO
Um voto de pesar pela morte de Manuel Violas, proposto pelo PSD e aprovado por maioria com os votos contra da CDU e as ausências de Carlos Gaio e Nuno Barbosa (PS), foi a nota dominante da reunião da AM de 5 de Março. Por terem sido, pela primeira vez, divulgados publicamente factos concretos sobre o seu passado, «ESPINHO VAREIRO» transcreve a seguir trechos das intervenções de Jorge Carvalho, Saudade Teixeira Lopes e Rui Abrantes sobre o assunto.
INDUSTRIAL
Como industrial foi um homem que fez fortuna, que teve olho e jeito para o negócio. Todavia a AM não é assembleia de industriais e não vamos apreciá-lo sob este prisma.
ELEIÇÕES DE 1969
Era Delegado da Oposição o Dr. Ferreira de Campos. No acto eleitoral encontrava-se no átrio da Câmara para fiscalizar o processo. Foi-lhe negado o acesso e uma simples cadeira para se sentar durante o acto eleitoral. O Dr. Ferreira de Campos manteve-se em pé, encostado a uma coluna, tentando fiscalizar o acto eleitoral.
A certa altura, sendo a bicha grande, apareceu o falecido Dr. Amadeu Morais e esposa, que se colocaram no fim. Simultaneamente chegou o Sr. Manuel Violas, na altura vice-presidente da Câmara, que se encostou risonhamente a outra coluna a assistir ao acto eleitoral. Quando o Dr. Amadeu Morais chegou à mesa para votar, ficou surpreendido porque o seu nome tinha sido riscado dos cadernos eleitorais por ordens administrativas. O Sr. Violas manteve-se impávido e sereno perante esta bofetada política. O Dr. Amadeu Morais fez, na altura, um protesto por escrito contra a presença do Sr. Violas por estar ali, antidemocraticamente, a impedir a liberdade das pessoas.
JULGAMENTO DE OPERÁRIO
Em 1971, no Tribunal da Vila da Feira, foi julgado um operário do Sr. Violas. Era acusado de ter alugado, sob um nome falso, uma casa na Rua 7. O Sr. Violas estava presente, sentado no meio de dois PIDEs. Segundo a versão de um dos PIDEs, tinha havido agitação na CORFI. A PIDE tinha sido chamada pelo Sr. Violas para averiguar sobre as reivindicações dos operários.
ELEIÇÕES DE 1973
Citando o «Defesa de Espinho» de 23 de Outubro de 1973, o Sr. Lino Martins Coelho declarou que o seu trabalhador, Sr. Manuel Pinto Pereira, não pôde ser candidato pela lista B, da Oposição, à Junta de Freguesia de Silvalde porque o Sr. Violas o tinha pressionado pessoalmente a fazer isso.
PÓS 25 DE ABRIL
O Sr. Violas influenciou a escolha dos candidatos do PSD e do PS às eleições. A sua vocação para interferir no campo eleitoral espinhense revelou, sob o ponto de vista político, que não era um defensor da democracia, não respeitava a liberdade de pensamento dos outros e usava o seu poder económico para escolher as pessoas que deviam ou não ser candidatos aos cargos políticos.
CONSTRUÇÕES E EXPROPRIAÇÕES
Ainda hoje não temos Parque da Cidade nem Estádio Municipal. O Sr. Violas contestou as expropriações de terrenos. No entanto, o Sr. Violas fez expropriações em Espinho que muito bem entendeu sem que o tivessem incomodado, nomeadamente para o Hotel, para o Golfe e para o Apart Hotel.
Foi ele que fechou as Ruas 16 e 18 para construir o bairro entre as Ruas 20, 43 e 41, com dinheiros das Caixas de Previdência, com juros bonificados, com rendas de 600 escudos, na altura incomportáveis. Nunca nenhum operário lá viveu, e neste momento pedem rendas de 60 contos por coisas construídas com dinheiro de todos nós. Foi ele que fechou as Ruas 6 e 19 para construir o Casino.
DIREITOS SINDICAIS
Praticam-se, ainda hoje, discriminações salariais nas empresas do Sr. Violas. As mulheres ganham menos que os homens embora fazendo igual trabalho. O «Passarinho», gratificação natalícia na CORFI, é atribuído não em função da produção dos trabalhadores mas em simpatias baseadas em certos comportamentos. O subsídio de aleitação não é pago às senhoras grávidas, direito legalmente prescrito. Este assunto foi debatido na Comissão da Condição Feminina, cujo presidente é Leonor Beleza, tendo o Sr. Violas vindo a ser condenado por isso. Os direitos sindicais, estabelecidos pelo Decreto-Lei 215, são limitados, bem como o direito à greve, exercendo-se represálias aquando de adesões.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 8 de março de 1991