DUAS HORAS QUE ABALARAM O COLISEU
Cinco minutos foram o suflciente para a orquestra liderada por Walter King, saxofonista e sobrinho de B. B. King, testar a aparelhagem sonora e preparar a entrada triunfal do «Rei dos Blues».
Trajando um sóbrio fato cinzento, que não o da «farda» castanha da orquestra, B. B. King foi ovacionado, de pé, pelo público que enchia por completo o Coliseu do Porto, para logo atacar, de uma forma estonteante, o tema «I Say Rock'n'Roll».
Seguiu-se um «blues» e B. B. King foi rei, deixando-se, qual criança, embalar e enlevar pelos sons arrancados da sua «Lucille», e levando ao rubro a plateia quando, inimitavelmente, fazia um agudo ficar suspenso e ecoar pelos cantos do Coliseu.
Veio depois um «boggie-woogie» que permitiu revelar a virtuosidade de Wiggins (trompete), Walter King e Melvin Jackson (saxofone). «Ain't Nobody» e «Darling, You Know I Live You» trouxeram uma certa descompressão, permitindo que King, sentado, desse largas ao seu «feeling» dedicando o primeiro tema à sua terra natal, o Mississipi.
Pelas 22,30 horas, o ritmo acelerou, e houve girândolas de ‘breaks’, ‘riffs’ e diálogos com o trompete, o saxofone, a viola baixo e a bateria. O piano (instrumento) esteve muito mal. A propósito, já não há técnicos e afinadores de pianos à altura no Porto?
Rui Veloso, também vestindo cinzento, entra depois pela mão do mestre. Nova ovação, de pé. Rui
Veloso, sempre humilde e come- dido, solicita o apuramento do som ao produzir os primeiros compassos de um «blues». Como o vinho do Porto, as notas do Rui parecem cada vez mais cristalinas. De uma tribuna, uma voz rouca faz-se ouvir: «O Rui é o maior!».
O diálogo logo estabelecido entre «Lucille» e a viola do Rui proporcionam momentos de rara beleza e frémitos na assistência. «Porto Sentido», tocado, cantado e entoado em honra de B. B. King, sensibiliza todos. No tema seguinte, Rui Veloso vê a sua corda de mi rebentar. Pressuroso, Melvin Jackson dirige-se-lhe com uma corda nova. Rui prefere tocar noutro registo, logo apoiado nos agudos por King. A seguir, Rui toca com a sua velha, mas querida viola azul.
Pelas 23 horas, o «boggie-woogle» «Ever-day I Have the Blues» leva novamente a sala ao rubro. Solicitado pelos prolongados aplausos, B. B. King oferece ainda três «encores», o segundo dos quais, o célebre «When The Saints Go Marchin 'in», é a apoteose do concerto.
Ridículo, apenas a apertada vigilância da segurança que permitiu o registo visual do concerto só a pessoas devidamente credenciadas. Para o consumo indiscriminado de cerveja em lata dentro da sala e durante o concerto não parece ter havido necessidade alguma de credenciais especiais. Que o diga o casal americano - ele, do Ohio, ela, Julie Sutliff, da Pennsylvania -, sentados na segunda fila, mesmo atrás de mim.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 30 de março de 1990