CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÃMARA

Artur Pereira Bártolo

Chegou a altura de lhe manifestar publicamente a minha decepção quanto ao seu comportamento neste segundo mandato. A sua conduta tornou-se a antítese da que tinha praticado logo após Abril de 1974 e no seu primeiro período como presidente da Câmara, altura em que conseguiu com a colaboração de outros políticos traduzir em obras que desenvolveram o nosso concelho e mormente a cidade. Mesmo como vereador no Executivo de José Fonseca, e apesar de fazer o ofício de corpo presente não deixou de ter uma aparente maneira de estar no cargo como um político de meias-medidas, que agora verifico terem sido o prelúdio da sua actual conduta. Ao privarmos estes últimos anos por força dos cargos que exercemos e em que certo tipo de amizade se esboçou, fiquei a conhecê-lo parcialmente mas o suficiente para verificar que o epíteto de «rata velha» com que se lhe referiam os seus mais antigos conhecidos, estava bem aplicado, se bem que pessoalmente considerasse a sua sabedoria mais saloia que fidalga. Tenho que confessar que muitas das suas atitudes e considerações sobre determinados poderes económicos da nossa praça têm hoje uma clareza que justificam a reviravolta que fez nestes últimos dois anos no desempenho do cargo. Da mesma ambiguidade se aperceberam também neste período a grande maioria dos políticos seus apoiantes do partido que o guindou ao lugar que ocupa e que o abandonaram desiludidos e feridos pela sua traição. A sua prática vem, afinal, dar-nos razão. O senhor já não é aquilo que sempre apregoou ser e, felizmente que não possui o poder económico pessoal que certo indivíduo possui porque senão seria muito pior que ele.

Quando em Outubro de 1983 corria à boca cheia que o senhor visitava determinado indivíduo em casa e disso lhe dei conhecimento, apressou-se a dizer-me que a razão se prendia com a necessidade de estabelecer diálogo para, desse modo, conseguir beneficiar a nossa terra. A visita fê-la porque, afirmou, o visitado estava doente e não podia subir escadas.

Quando na mesma altura lhe comuniquei o boato que começava a correr acerca do aumento da cércea da rua 35 onde habita ter tido o seu especial empenho porque disso beneficiava directamente em virtude de possuir ali dezenas de metros de prédios, a sua justificação não teve aquele cunho de autenticidade transparente que o boato exigia.

E por estas duas estranhas condutas propus-lhe fazer uma entrevista a este semanário com a finalidade de esclarecer a opinião pública. Você aceitou a proposta e pediu-me que lhe fizesse as perguntas por escrito. Fi-las e entreguei-lhas. Só que ainda hoje estou à espera das respostas e nem uma simples justificação para a nega me deu.

Aqui se deu o início ao esfriamento das nossas relações e à sua progressiva caminhada para os braços de quem sempre constituiu um dos seus mais acirrados inimigos no campo político, e que através dum pasquim, e duns mercenários escribas, lhe chamou os mais destemperados nomes e lhe fez as mais negras acusações sobre a sua vida pessoal e honestidade. Que você, aliás, nunca contestou...

Pois apesar de a campanha que, despudoramente, lhe foi feita, você acabou não só por ter o benefício mas mesmo o apoio claro e evidente desses mesmos acirrados políticos — cabe aqui perguntar porquê? Afinal quem mudou? Os factos respondem por si. Você é que abandonou algumas posições e projectos pelos quais tantos se bateram. Os outros esses continuam na mesma.

Compreende-se que um adolescente ingénuo e dependente possa cair numa esparrela destas mas o senhor, com a idade e a independência que disfruta, não se entende.

Trocar as amizades e os companheiros de toda uma vida por que inconfessáveis desígnios é um mistério. Sujeitar-se a ouvir, na Assembleia Municipal, aqueles que o apoiaram na campanha para este mandato dizerem-lhe quanto se sentiam desiludidos pela sua conduta incompreensível, que já pulverizou a imagem desse partido, é demais.

Sofrer, nesse tribunal que é a Assembleia Municipal, os ataques das outras forças políticas e vê-lo a titubiar justificações infantis, é triste.

Vê-lo a fugir dos amigos e dos munícipes, a refugiar-se na sombra do gabinete e ouvir o que dizem aqueles que em si apostaram, é deprimente!

No fim duma vida vê-lo abandonado, apontado como exemplo vivo da incoerência, da prepotência e da frustração é lamentável.

O senhor presidente não é, há muitos meses, o presidente da Câmara que os seus conterrâneos elegeram. Esta é uma verdade que não posso deixar de lhe dizer com mágoa. Muitos e muitos dos seus concidadãos que em si votaram se alguma vez sonhassem que a sua postura e comportamento políticos seriam o que são, não tenho dúvida que não teria ocupado o cadeirão do poder em que está investido.

E, como se já não bastasse todo este triste período da vida política que está a atravessar, como já não tem a presença de espírito e a clareza de raciocínio que devia ter, e porque não quer a seu lado alguém que lhe esfrie a cabeça, o senhor presidente, descendo ao mais baixo da escala de valores, corta a publicidade das coisas públicas que o mandato do povo lhe confiou administrar! Você que condenava os métodos do anterior regime, que se arvorava em democrata, sonega a uma parte dos seus conterrâneos que são os leitores deste semanário a publicidade das decisões da Câmara! Quando o seu antecessor assumiu a mesma posição, por razões gravíssimas, com outro semanário desta cidade, você não concordava. E hoje vai fazer o mesmo. Quando democraticamente tem o direito de resposta e o poder judicial para recorrer.

Porque razão é que a polícia política se preocupava consigo?

Francamente que não compreendemos porque é que o senhor presidente, naquele tempo, era consilerado hostil ao regime.

Hoje eu compreendo o génio, daquele que conseguiu, virar-lhe a personalidade do avesso. Não merece contestação que só uma mente extremamente arguta é capaz de explorar as condições frágeis que os potenciais inimigos têm. Para além da força do dinheiro que possui, ele soube explorar a piedade de alguns, a vaidade dos pavões, a clubite da massa populista e a necessidade do sobrevivência duns tantos para dividir os partidos que tinham no seu seio indivíduos que lhe contrariavam os objectivos. Só não soube distribuir o farelo e ficar com a farinha.

Nem todos os que o afrontaram e afrontam foram absorvidos. Mas no conjunto das vitórias, estes são uma minoria sem grande significado.

E o senhor presidente, que se crê um inteligente num amar de burros», deixou-se arrastar pelos métodos de quem, abertamente, o soube levar a precipitar-se no abismo dos que ficam na história como uns homens sem coerência e verticalidade.

A sua atitude é grave, e reveladora no plano dos princípios e do comportamento de que afinal a sua verdadeira personalidade não é aquela a que muitos, apesar de tudo, pelo seu passado, estavam convencidos ser. Desde logo porque revela em si própria, a incapacidade para aceitar a crítica, e a discordância que em democracia é um direito fundamental e inalienável de qualquer cidadão ou de qualquer órgão de informação. Materializa o princípio salazarista de «quem não é por mim, é contra mim» e em consequência não se aceita, se possível persegue-se e à falta de outras soluções corta-se a publicação de publicidade da Câmara para assim tentar a asfixiação pela via financeira.

Numa nova situação, em nome da liberdade e da democracia, utilizam-se velhos e antigos processos, contra os quais, curiosamente, se lutou. Enfim parece por se terem mudado os tempos, mudaram-se as vontades.

Mas o mais grave e que merece alguma ponderação é que esta atitude não fere só o nosso jornal e os nossos leitores. Ela encerra em si própria o mais profundo desprezo e desrespeito por aqulo que é a realidade política actual do nosso concelho. O isolamento político do senhor presidente da Câmara, é uma realidade e não uma ficção supostamente imputável ao nosso jornal.

Vejamos agora o que aconteceu na discussão e aprovação do últmo Orçamento e Plano de Actividades da Câmara, instrumento fundamental e espinha dorsal da prática e solução propostas para se resolverem os problemas com que o concelho se debate. O PSD absteve-se, mas passados dias e em comunicado público, informou-nos que só não votou contra por meras razões de circunstância. A APU votou contra. Os elementos presentes do CDS, ao que sabemos e por razões de ordem pessoal e não política foram eles afinal que acabaram por viabilizar a aprovação do orçamento e do plano de actividades. O actual PS foi o único partido que o defendeu. Mas convém assinalar que alguns dos seus mais destacados militantes ou não apareceram ou pediram a suspensão dos seus mandatos, numa atitude de claro significado político, recusando dar-lhe o seu apoio, por manifesta discordância com a sua atitude e prática, relativamente a alguns problemas fundamentais, para o concelho. O Conselho Municipal também recomendou à Assembleia Municipal a recusa deste orçamento e plano de actividades em termos que são do conhecimento público.

Uma conclusão é evidente: a unanimidade de outrora passou à história. 0 seu isolamento político é uma realidade. O senhor já nem sequer tem o apoio daqueles que no partido pelo qual foi eleito, por si mais se bateram e arriscaram. A desconfiança existe. O descrédito é uma evidente realidade social. A convicção do seu fim político é hoje um dado adquirido. Você, que no passado tantas vezes ameaçou demitir-se, se não fossem tomadas posições claras contra a prepotência e o tráfico de influência do poder económico que impediu até hoje a construção do estádio municipal e do parque de campismo, hoje existem sobejas razões objectivas e subjectivas para o fazer. Por uma questão de coerência, de ética, de dignidade, demita-se. O senhor perdeu a confiança de muitos e muitos que em si confiaram. Ou será que afinal o poder pelo poder tudo justifica? Pobre da democracia, se não conseguir colocar nos órgãos do poder os mais capazes, os mais honestos, os mais coerentes, os que querem servir e não servir-se.
JOÃO QUINTA
Espinho Vareiro, 22 de março de 1985