ESPINHO AMBIENTE 91


Mais um 21 de Março se comemora, na esperança de purgar pecadilhos contra o ambiente.

Ainda não longe vão os tempos em que invocar problemas de ambiente era considerado ousadia e visto com suspeita. Hoje, quase se tornou chique. Na boca e no papel. Até o spray e o detergente mais rasca é verde e amigo do ambiente.
Os meios de comunicação social associam-se à efeméride. Em parangoras e à boca cheia. As escolas projetam filmes, expõem desenhos e plantam meia dúzia de árvores. Os políticos e os peritos na matéria têm espaço verde de antena. Uma ou outra árvore é plantada «para a fotografia».

Hoje é como um Domingo para o Ambiente. Toda a gente parece, subita, miraculosa e angelicamente, verde. Apontam-se, acusadoramente, casos de negligência provocadora de atentados à natureza. Fala-se da maré negra no Golfo. Mostra-se as consequências do derrame do Exxon Valdez e da maré negra na Madeira. Para trás ficaram os desastres nucleares de Three Mile lsland, Sellafield e Chernobyl. Que virá a seguir?

No concelho de Espinho, parece que Ambiente significa praia. Praia, claro entre a 19 e a 23, mesmo com todo o lixo voluptuosamente bailando ao sabor da nortada. Limpá-la, só para o turista. E a bandeira azul? Para quê? O negócio faz-se mesmo sem ela.

O Rio Bajunco/Rio Largo espera uma acção de despoluição. Para quando?A Ribeira de Silvalde está poluída? Continua-se a lavar roupa lá mesmo por baixo da linha do comboio? Pois claro, é tão pitoresco e fica tão bem na fotografia do turista.
Há fumos de fábricas a brincar com a saúde de milhares de crianças nas escolas. Quem disse? Olhe que não. Os fumos, se os há, até são bem limpinhos e o vento leva-os para longe.
Os comboios persistem nas suas buzinadelas nocturnas, apesar das inúmeras reclamações? Olhe que não. Olhe que até é fixe. Embala o sono do justo residente, anima a noite solitária do congressista e do turista, e intervem em contraponto nos concertos no salão nobre do casino.
E o património histórico tão degradado? Lá está você outra vez. Para quê preservar a Brandão Gomes? Para quê conservar edifícios antigos de traça majestosa? Para quê perder tempo com o Castro de Ovil? Isso é perder dinheiro. O cimento, isso sim, é progresso. Pode-se até pintar de verde um ou outro bocado de passeio para fingir relva. Pode-se até pôr uns arbustos de plástico aqui e ali, como no aeroporto de Lisboa, e até se pode tirar os ramos para se lavar. É uma limpeza!
E não há prevenção? E educação ambiental? Que é isso? Deixe-se de tretas. As árvores carinhosamente plantadas pelo Município podem muito bem continuar a ser partidas e arrancadas por qualquer besta tresmalhada. Pode ser que alguém se lembre de mandar plantar mais para o ano.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 22 de março de 1991