Querida Tia Bizantina,
Obrigado pela sua cartinha. Gostei muito. Assim é que é, não demorou a responder. E, como vê, já lhe estou a escrever. Depois não diga que eu me distraio.
Pois olhe, tenho bastantes novidades, que estes últimos tempos foram mimados, por cá. De repente fiquei a saber que o ano Europeu da Conservação da Natureza começou. Deu para tirar a fotografia à Ministra do Ambiente. Cá na terra nem foi preciso avisar, porque parece que estas comemorações tinham sido antecipadas com a construção de casas sociais como por cá se diz. Mesmo em cima da praia, que é paranão se dizer aí fora que os pobrezinhos não têm direito a boas vistas e bons ares. Quando o mar avançar, logo se vê. Bodyboarders e surfistas não faltam, andam todos os dias a treinar. Para alguma coisa o treino há-de servir. Não sei que com eles têm em andar a treinar naquela água tão castanha. A água deve estar castanha da porcaria que as marés trazem dos outros lados, porque esta terra é, como já lhe disse, muito limpinha, graças a Deus. Há para aí uns cãezinhos que «sujam» a zona chique da cidade, mas isso é outra música.
Já não há respeito: o chefe dos jovens empresários disse que Catroga, o ministro das finanças, se devia demitir. Eles dizem que estão fartos das cantigas do Avô Cantigas, que a retoma não se vê, que é tudo uma cantiga do Avô Cantigas e por isso Catroga devia mudar o nome para Retroga. Parece que o congresso do tal partido não chegou para os acalmar. Ao que isto chegou! Se calhar foi tudo por causa daquele discurso do norte e do sul, e se vencesse o sul, seria uma catástrofe - a última palavra que aprendi com a vizinha Viperina. Isso fez-me lembrar o meu tempo de escola aí, das lições de história, da nossa guerra civil. Os do norte, os da União, também diziam a mesma coisa. E para isso não acontecer, pilharam e incendiaram os do sul, os Confederados, mesmo depois de os derrotarem militarmente. Por cá e apesar de o candidato nortista ter vencido, isso também não parece ter acalmado os jovens empresários.
Mas a falta de respeito não se fica pelos partidos. No futebol também há e bastante. Desta vez não foi culpa das claques, mas dos próprios jogadores. Imagine a Tia que uns jogadores da selecção nacional haviam de se queixar com jogos a mais quando foram chamados para jogar com a Holanda, jogo já combinado há um ano. O marido da minha vizinha Viperina diz que isto são abusos a mais, que infelizmente isto está a pedir chicote. Ou de apito, como dizem alguns fans.
E a propósito de futebol, dizem por aí que o director de um clube desportivo de cá não aguentou o barco e não vai continuar à frente do glorioso. Entrada de tigre, saída de rato, diz o marido da minha vizinha Viperina, que disso de futebol sabe bastante: a avó dele até foi uma das fundadoras do glorioso. Segundo ele, foi entrada de tigre porque o homenzinho prometeu mundos e fundos - aprendi esta expressão há pouco tempo, com quem já deve saber - que ia conseguir um estádio novo, até falou mal dos políticos da Assembleia por criticarem à cedência de um parque subterrâneo para o Clube explorar. Parece que eles até gostaram porque consta que ninguém se levantou para protestar. Agora o homenzinho vai sair, e ainda por cima sem medalha. Isso também não se faz, coitado. Andaram a empurrá-lo até há um mês e agora já não serve? Enfim, aí com o baseball era quase a mesma coisa, só que aí havia mais limpeza nos dinheiros. Ainda é assim?
Vou ficar por aqui, que isto alongou-se. Desejo à Tia as maiores felicidades, e como de costume as minhas recomendações às primas.
Seu,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 10 de março de 1995