Caro Speakeasy,
Finalmente tenho vagar para te escrever umas linhinhas. Credo, há que tempos não te respondia, pelo menos para te agradecer as recomendações que mandas nas cartas à Bizantina.
Ela tem-me contado as notícias que lhe mandas. Achei imensa graça àquela do Retroga e do Avô Cantigas, à dos sulistas e elitistas e à do director do clube que saiu sem medalha. Mas a que teve mais graça foi aquela da capela inaugurada e benzida no dia do Benfica-Milão. Quando conto isso, toda a gente pensa que estou a mangar. Tenho que jurar a pés juntos que foi o meu primo, que está em Portugal, que viu tudo na televisão, que me contou. Eles não querem saber onde isso é, mas que acham imensa graça, lá isso acham, especialmente os italianos que vão ao bar mesmo aqui em frente à nossa casa. Eles dizem que o Benfica nunca poderia ter ganho por causa do nome da claque. Podiam lá os «Diabos Vermelhos» entrar na capela acabada de benzer?
Aqui o que a televisão tem mostrado é o Canadá que não quer barcos espanhóis e portugueses ao pé das suas águas. A princípio a gente não percebeu do que estavam a falar. Sabes muito bem que a nossa televisão só fala da América, que é grande, e não precisamos de andar a falar dos outros para encher tempo. Segue-se que quando falaram do Canadá e de Portugal, a gente arrebitou as orelhas. A princípio não percebemos porque é que o Canadá estava a fazer aquilo, até porque não é como a América que anda sempre a meter o nariz em tudo o que não é seu. De política pouco percebo, mas dizem que foi tudo porque vocês e os vossos vizinhos andavam a palmar a palmeta ainda miúdinha, com rede apertada, contra o que diz a lei e isso o Canadá não deixa fazer. E isso de vocês aí na Europa acusarem o Canadá de pirata não se faz. Também não percebo uma coisa: porque é que o Greenpeace, que vocês aí dizem que é radical contra os poluidores, está a apoiar o Canadá?
A filha dos Reis de Espanha casou-se e os espanhóis não convidaram o nosso Presidente. Isso não se fazia ao Presidente do país mais forte do mundo. Não temos culpa de ser vizinhos do Canadá. Eles depois que venham pedir ajuda!
Outro assunto que provocou bastante discussão foi uma empresa de petróleo, nossa, andar a fazer negócios de milhões com o Irão, apesar de todo o alarido que a Casa Branca faz contra esse país. Alguns dizem que não é nada do outro mundo. Aí na vossa velha Europa também não têm uma marca de sapatilhas que faz negócio com a Indonésia? E vocês não têm uma empresa do estado que andou a consertar motores da Indonésia! E apesar de todo o alarido do vosso governo, o ministro da guerra não foi o último a saber?
Quanto à tua preocupação sobre a descida do valor do escudo, podes estar descansado que por cá o dólar também desceu e muito. Os japoneses é que não gostaram da brincadeira. Dizem que assim não vendem tanto a nós. Eu não percebo nada de política, mas quando olho para o lado vejo cada vez mais coisas daqueles lados a serem vendidas. Vá lá a gente entendê-los. O problema é que quem anda a ficar com os olhos em bico sou eu.
Olha, cuida bem de ti.
Vou terminar desejando-te o melhor.
A prima que muito te estima,
Alienação
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 24 de março de 1995