Querida Tia e Primas,
Obrigado pela sua carta. Gostei de saber que estava tudo bem. Por cá temos visto na televisão as desgraças das cheias e do ciclone que destruiu tanta coisa por aí. Espero que não tenha havido prejuízos aí na vossa área. Por cá tem feito muito frio, mas felizmente que a chuva já lá foi. O céu tem estado bem azul e tem sido um prazer dar uns passeios pela marginal. A praia também tem estado mais limpinha. Pudera, depois de tanto temporal, bem se pode dizer que a natureza se lavou. E depois têm andado a apanhar montes de lixo que o mar tinha trazido para cá.
Voltando àquela dos trabalhos a mais, — a Tia lembra-se? — foi um milagre. Mal prometeram pagar trabalhos a mais, as obras do famoso largo aceleraram que foi um regalo. Mas afinal parece que a chuva é que foi a mais. Os trabalhos, esses, dizem que era aquilo mesmo. Tanto dinheirinho para inglês ver, diz a D. Viperina. Eu acho que ela exagera, ela está sempre pronta para a má língua, não poupa nada. Eu até acho aquilo uma obra de peso. É sinal que os Espinhenses, os Portugueses estão bem na vida. E se estão bem na vida porque é que não se hão-de entreter com obras destas de encher o olho no dia da Independência? Ai Tia, que eu a falar de Independência já estava com a cabeça aí no 4 de Julho. Aqui é mais cedo, a independência da cidade é em Junho, não estou bem certo do dia.
Sobre a prisão de um agente da CIA, a televisão de cá só falou uma vez. Também de repente deixou de falar sobre os tais aviadores cubanos. Diz-se por cá que afinal o Fidel barbudo tinha razão. Os tais aviadores não andavam a fazer nenhuma obra de caridade nem a defender direitos humanos nenhuns. Andavam, isso sim, a violar o espaço aéreo cubano e a provocar o indígena. Os amigos do Bill é que tentaram impingir essa dos aviadores em missão de caridade e de defesa de direitos humanos. Eles haviam de ir aí a Filadélfia, à South Street, ou ao Bronx — aí há muitos direitos humanos a defender. O certo é que de um momento para o outro deixaram de falar no caso. Muito estranho. Estranho foi também uma patente militar americana ter vindo aqui à Europa dizer que a NATO era a América. Eu cheguei a pensar que os ingleses ou os alemães iam bater o pé e pedir explicações, mas enganei-me. Os ingleses mostraram que estavam mais interessados no desfecho do caso Di-Charles e os alemães provaram que o que querem é salvaguardar os investimentos turísticos na Bósnia. Tudo calado.
Já me ia esquecendo. A novidade por cá é que os Portugueses já têm novo Presidente. De certeza que as televisões daí não falaram de nada sobre isto. Pelo contrário, se o gato do Bill tivesse trepado a uma das árvores da Casa Branca e não tivesse conseguido sair de lá, teriam chamado as televisões para filmar e transmitir para todo o mundo, em directo, a operação de salvamento. E as televisões de cá haviam de transmitir isso. Pois segue-se que o velho presidente organizou um jantar de despedida. E para o jantar convidou o novo presidente, mas disse-lhe que não fosse ao jantar. Parece mentira, não é Tia? Eu também diria que estavam a gozar comigo se eu não visse. Mas vi tudo na televisão. Ainda por cima da boca do presidente que estava de saída. Não dá para perceber. Também não faz mal. É mais uma para a colecção.
Por agora é tudo. Continuação de excelente saúde. Um abraço para todas. Recomendações ao Sr. Perry.
Seu,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 15 de março de 1996