TASCA PIROLITO (80)


Querido Primo,

Espero que esta te vá encontrar de perfeita saúde, que por cá vamos todos bem. Hás-de desculpar escrever-te tão pouco, mas a nossa Bizantina já está reformada e tem muito mais tempo para te escrever do que eu ou do que a Poupança. Mas não penses que não te ligo. A Bizantina telefona-me logo que recebe uma carta tua e conta-me tudo. Por isso sei tudo o que tens feito e como é que as coisas vão por aí.

Tenho apreciado o que a Tia Bizantina me conta daí - a promoção do S. Valentirn, a greve dos camionistas, os tiros aos da Greenpeace que não queriam que um barco nosso, americano, despejasse milho alterado geneticamente, o postal de boas festas que a tua vizinha D. Viperina recebeu do Mayor, o falhanço do repuxo na altura da inauguração da praça nova que era largo velho, a corrupção do vosso futebol, as derrapagens da vossa Expo 98, o vosso partido que critica o Mayor mas ainda não tem candidato à Câmara, o vosso Mayor que foi ao Brasil ver jogar volei, a vossa deputada que foi à Índia, o vosso Presidente que foi a Macau, eu sei lá que mais. Olha que tu deves mesmo andar entretido com todas essas coisas interessantes, porque por cá é tudo muito insosso. Podes crer que havia muito mais animação por cá antes dessa coisa da queda do muro de Berlim.

Agora é o que se vê. Só se fala no novo julgamento do OJ Simpson.

Uma das últimas que deram brado por cá foi um Governador que de repente perdeu o tino e começou a chamar bestas aos políticos do governo federal de Washington por causa do baseball. Ele queria que os quatro clubes do seu Estado se fundissem num único. Os de Washington disseram que já lá ia o tempo dos Governadores se meterem no baseball, e ele sempre a maltratar os homens do Presidente. Mas em vez de lhe darem uma ensinadela à moda antiga, os media começaram a fazer-lhe entrevistas e a organizarem talk-shows todos os dias, de modo que foi um fartote. Felizmente que tenho a televisão por cabo, porque senão não sabia o que fazer. Eram todas a dar mesmo à mesma hora às seis e meia, logo depois do grande jornal da hora do jantar.

Outra coisa que se passou por cá e tem dado muito falatório - não sei se a Bizantina já te contou -, foi uma obra que fizeram na South Streeet. Finalmente, depois de tantas queixas por parte daquela gente que vivem como tu sabes e te lembras - até tinhas medo de lá passar, arrancaram parte do alcatrão e puseram uma camada nova. Foi tudo feito rapidamente, quase ninguém deu por nada, porque foi feito em duas noites para não atrapalhar o trânsito e para aproveitar mão de obra de imigrantes que é mais barata e por ser de noite sabia-se que os fiscais não iam fiscalizar porque não há dinheiro para pagar horas extraordinárias. Pois segue-se que com a rapidez toda esqueceram-se que havia tampas de saneamento que deviam ficar descobertas, ao mesmo nível do piso. Conclusão ficaram todas enterradas. Houve já quem levantasse a lebre no Philadelfia Enquirer mas logo o Mayor veio dizer que erros daqueles eram normais em obras daquele tipo, que tudo se havia de arranjar. Só que já se passaram várias semanas e nada foi feito. E há já pessoas preocupadas com as próximas chuvas, porque se forem fortes, vão engrossar os caudais e depois ninguém sabe como vai ser. Antes, quando havia pressão de água a mais, a água levantava as tampas e corria pelas ruas. Agora que as tampas estão enterradas pelo alcatrão, oxalá não rebentem as canalizações.

Bem, por agora é tudo. Porta-te bem. Prima que muito te estima,
Alienação
Octávio Lima,
Espinho Vareiro, 7 de março de 1997