GRÂNDOLA VILA SENTADA
Há dias, não tendo conseguido acompanhar o vertiginoso correr de memórias e experiências de há vinte anos, jogara fora a meia dúzia de linhas que conseguira rascunhar. Só banalidades. Não iria, pois, desfiar e repetir banalidades mais que recicladas.
Não fora o que presenciei durante as comemorações do 20.º aniversário do 25 de Abril, na Assembleia Municipal, e não estaria agora a escrever sobre elas. Para que conste que, em Espinho, 20 anos depois do 25 de Abril, depois da morte de Zeca Afonso, se cantou «Grândola Vila Morena». Que não de pé, que pareciam estar todos muito cansados, excepto meia dúzia de assistentes. De realçar que «Grândola» foi cantada pelo Coro da Nascente, após este ter executado, com muito brio, 5 canções de Lopes Graça, e dos prolongados aplausos dos vogais, dos vereadores e do público, à espera de um «encore».
Para trás tinham ficado as intervenções dos representantes dos cinco Partidos, pela ordem crescente de votações conseguidas nas últimas eleições autárquicas. O primeiro coubera a Correia de Araújo. 25 de Abril só havia um, embora com refrigerantes, mas sempre sem corantes nem conservantes. Depois deste, os outros discursos pareceram eclipsar-se no arco-íris de imagens já muito fotografadas e reveladas. Inclusivamente o do jovem Luís Montenegro. Que não passou da já gasta cassete da democracia de sucesso, do pipipi de quartzo, do telemóvel e do jipe galgando praias e dunas.
No momento em que finalizo este parágrafo, — uma da manhã de 26 de Abril— ainda me pergunto por que razão há tanto barulho na linha. Descubro que não há motivo para alarme. Está tudo dentro da normalidade. Um enorme combóio está parado na estação. A traseira da última carruagem está sensivelmente perpendicular à Rua 9. Seis soldados sobem, apinhados, para o estribo da última porta. O comboio apita e parte, lentamente. A gritaria aumenta. Ao passar pelas luzes da estação, ainda se vislumbra o cacho humano na porta da última carruagem...
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 29 de abril de 1994