ADEUS, ESPORÃO!

Pela acção da força humano-mecânica e da dinamite, o esporão da Rua 23 está já praticamente desaparecido. Para mim, cuja meninice decorreu na década de cinquenta o esporão era uma referência forte. À altura, era o maior, todo em cimento, entrando pelo mar dentro. Bem sei que esta imagem que nós, os 'putos' dos anos cinquenta, tínhamos do também chamado 'paredão' era um pouco à nossa altura. Na prática, o esporão pouco ou nada contrariou as investidas do mar. Mas olhávamos para ele com um certo respeito. Quanto mais não fosse, abrigava-nos das nortadas e, na década seguinte, permitia uma certa privacidade nos arroubos amorosos... 
Até agora, na chamada 'hora da despedida', o paredão da 23 prestou um último serviço à comunidade - a sua morte lenta constitui um passatempo para reformados, desempregados e 'OTLs'. E foi vê-los a dar palpites, a discorrer fluentemente sobre marés e correntes marítimas, sobre técnicas de demoição. Entre uma e outra olhadela à movimentação do guindaste, ao vai-vem dos camiões e ao receio comedido das explosões, muito mexerico foi feito, muito se cortou na casaca dos políticos (locais e não só), muitas tácticas se gizaram para o próximo jogo do Espinho. 
E, assim, o paredão da 23 se despediu da cidade-então-Vila que o viu nascer. Se teve pouco valor para a defesa da costa teve outras serventias, de muita e variada espécie. Até na hora da «morte», física, que não definitiva. As pedras e blocos de cimento que o corporizaram aí continuam, no Esporão da Piscina e na foz do Rio Largo, permanentemente ao serviço. Adeus, Esporão...

Nuno Barbosa
Espinho Vareiro, 15 de abril de 1988