AGORA JÁ LIGAM A LUZ AOS CLANDESTINOS


A Câmara, ou antes, os autarcas do Executivo com funções no Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados, deram luz verde para ligar a energia eléctrica às casas clandestinas do concelho que, segundo conseguimos saber junto da Repartição Técnica da Câmara, serão cerca de mil fogos, desconhecendo-se o número das que têm luz. O número exacto é desconhecido porque não está feita uma estatística que foi começada há cerca de 8 anos e abandonada três anos depois. Há dois meses foi admitido pela Câmara o Arq.° Rosa para, em especial, fazer um levantamento das construções clandestinas do concelho. 
Neste enternecedor quadro sobre clandestinos, duas conclusões se tiram: 
A primeira é que o Município tem feito grande economia em tolerar a construção clandestina, pois mil fogos a construir pela Câmara nos últimos 15 anos dava cerca de 70 fogos ano. Nos dois últimos anos construíram-se e lançaram-se 108 fogos e para vender, mas não se conseguiu travar a construção clandestina. Portanto, a Câmara investiu temporalmente 150 mil contos e, com o pêlo do mesmo cão, vai construir e tornar a vender mais 52 fogos. 
A segunda conclusão é que os membros do Executivo integrantes do Conselho de Administração dos S. M. são uns pontos. Após ser decidido outorgar os Serviços de Electricidade à EDP, autorizaram a ligação de energia às casas ilegais. Não queremos minimamente dizer com isto que estamos contra a ligação. Estamos, sim, dando mostras da arbitrariedade e falta de verticalidade. Para disfarçar a sua aprovação dos clandestinos, cumpriam parte da Lei, multando o infractor e enviando o caso a Tribunal, quando de um magistrado ouvimos dizer que a Cãmara tinha e tem poderes para actuar sem recorrer ao Poder Judicial. Esta estratégia de fechar os olhos aos clandestinos faz-nos recordar que o anterior regime também a usou no caso da emigração clandestina: via-se livre de muitas centenas de milhar de cidadãos que não tinham emprego, nem outras necessidades, como assistência à saúde, etc., etc... Hoje, e antes de entregar a exploração à EDP, toca a ensacar uns largos milhares de contos. 
Quanto à demagogia política e dignidade pessoal que se lixe...
Espinho Vareiro, 22 de abril de 1988