EM ABRIL ROSAS MIL


Escrevo estas linhas ainda sob a influência da euforia da enésima vitória de Rosa Mota, desta vez na Maratona de Londres. Partilhando da sua alegria, atrever-me-ei a dizer que Rosa Mota anticipou mais um 25 de Abril. Com rosas, claro. 
Parecem já longinquos os tempos em que, ainda estudante em Coimbra, surpreendi um colega, em plena aula de Paulo Quintela e poucos dias depois do 25 de Abril de 74, a redigir um projecto de prosa que começava mais ou menos assim: «O dia estava calmo. Os quarteis estavam calmos. Os soldados estavam calmos. Tudo estava calmo, com o raio!» 
Meses mais tarde, esse mesmo colega, prolífero em citar provérbios e máximas, viu a sua capacidade de citar reduzir-se drasticamente. Alguns íntimos chegaram, com alguma dificuldade, à peregrina conclusão que o turbiIhão de acontecimentos teria sido o responsável pela sua incapacidade de os rotular e comentar através de citações apropriadas. «O povo é sereno, é só fumaça!» passou a ser praticamente o estribilho com que rematava os seus comentários em relação ao frenesim da época. 
Veio e foi-se o MFA. Veio e foi-se o Spínola. Veio e foi-se o Vasco Gonçalves. Veio e foi-se o Otelo. Vieram e foram-se os SUVs. Arderam sedes de partidos. Ardeu o Cardia. Veio e foi-se o Eanes. Foram-se a AD e a ASDI. Foram-se o Sá Carneiro e o Amaro da Costa. Outros foram tratar de vacas. Vieram outros. A tudo isto esse tal colega de Coimbra persiste na sua: «O povo é sereno. É só fumaça». 
Tal como Rosa Mota em Londres no passado Domingo, conto comemorar as vitórias do 25 de Abril. Serenamente.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 26 de abril de 1991

Maratona de Londres a 21 de abril de 1991, a última vitória de Rosa Mota - Video do arquivo da RTP.