MEMÓRIAS

ABRIL EM COIMBRA


A catadupa de acontecimentos despoletada pelo 25 de Abril e, consequentemente, as inúmeras actividades em que me vi subitamente envolvido, não me permitem relatar com rigor os passos dados naquele dia.

Recordo que, com os meus 20 anos, as Monumentais foram fáceis de galgar de dois em dois, após pequeno almoço emborcado na cantina, creio que por ainda 25 tostões. Apenas tivemos a primeira aula do 4º ano de Germânicas, das 9 às 10, no piso 6. O resto daquela manhã, por coincidência cheia de sol, foi dinamizada por um grupo de colegas, entre os quais Carlos Silva, Américo Dias, Augusto Múrias e José Manuel Bóia. O Sr. Alves, o «rastejante Senhor Alves», como um dia lhe chamou o saudoso Professor Paulo Ouintela, — constava que Alves era informador da PIDE —, bem veio avisar para os «senhores doutores» se portarem bem. Teve a atenção que merecia. A turma ocupou a sala vazia mais próxima, e pôs-se a discutir política, fascismo, guerra colonial e outros assuntos.

A cantina, junto às Monumentais, cá em baixo à esquerda, esteve mais ruidosa do que o normal, e a bica, tomada por 12 tostões no Tropical, na praça da República, teve outro sabor. Como outro sabor teve o pregão do Teixeira que, na sua constante rouquidão, anunciava ao fim da tarde «Lisboa, Capital, República, Popular». Depois foi a vertigem do comprar das edições especiais dos jornais, de os ler e de os trocar. De nos pormos em bicos de pés a espreitar a televisão a preto e branco para ver o que o MFA dizia.

E de ouvir a rádio. Ouvi, nessa altura, muita rádio. Descobri que a BBC, em ondas curtas e em 25 metros, contava as coisas mais cedo...

Nos dias seguintes foi o rodopio de debates em todo o tipo de estruturas estudantis. Uma constante. A minoria masculina dominava. Raramente vi as mulheres intervir em igualdade de circunstâncias a não ser as raríssimas que militavam em organizações na época rotuladas de extrema esquerda. Algumas rendiam-se, embevecidas, no final das discussões: «Não sei como consegues ser tão reaccionário» ouvi mui prendadas Colegas elogiar, embevecidas, o poder argumentativo de Augusto Múrias e de José Manuel Bóia, na altura, respectivamente, militantes públicos e notórios da UEC e do MRPP. A ingenuidade e a cultura política da altura produziam assim os primeiros exemplares do que, duas décadas mais tarde, haviam de ser verdadeiras pérolas linguísticas de políticos profissionais.

Outro pormenor digno de registo é que já na altura havia quem nunca tivesse dúvidas. Mesmo sem ouvir ou ter acesso a outras fontes, já na altura havia aqueles que, por várias artes, tentavam impôr a sua, aparentemente única, visão das coisas. E havia aqueles que, sem pestanejar, aceitavam tudo. Naquela altura isso apoquentava-me. Há pouco tempo ainda me preocupava. Agora talvez me dê gozo...
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 22 de abril de 1994