Desculpem os estimados leitores a ausência destas colunas durante algum tempo. Ela deveu-se a uma estadia prolongada em Dogsville (vem no mapa), na Louisiana, Estados Unidos da América, onde todos os anos especialistas mundiais em canídeos se reunem em congresso patrocinado pela «Defending Dogs' Society» que, em Português, é mais ou menos «Sociedade para a Defesa dos Cães».
Seria fastidioso relatar em pormenor o que vi e ouvi, muito menos referir os pontos significativos da minha comunicação perante tantas sapiências. Valerá a pena, no entanto, pôr-vos ao corrente de algumas novidades que lá foram reveladas.
Ficamos a saber que nos países ditos desenvolvidos, para além de veterinários, os cães já têm psiquiatras, boutiques de pronto a vestir e casotas com ar condicionado. O inventor da trela elástica, várias vezes aplaudido durante a sua intervenção, acabou de criar um açaimo aerodinâmico para corridas especiais de Grande Prémio. O Director de uma cadeia de televisão disse-nos que, na sequência de várias pressões, a sua empresa estava a preparar uma série diária de cinco minutos — patrocinada por diversos fabricantes de enlatados para cães— especialmente destinada aos de luxo. O patrão de uma etiqueta discográfica anunciou estar em fase final de gravação uma ópera cantada por cães e para cães. Resta-nos perguntar: que mais irá acontecer ao cão?
Por outro lado, o progresso frenético e a consequente pulverização de atitudes e valores em relação ao cão levou alguns teóricos a pôr em questão a actualidade de uma série de provérbios e máximas caninas. As opiniões sobre os seguintes são as mais díspares:
Tal cão tal dono; a cão fraco acodem as moscas; mal ladra o cão quando ladra de medo; nunca falta um cão que nos ladre; cão grande nunca morde; cão que ladra não morde; cão bom não ladra em falso; cão de boa raça se não caça hoje amanhã caça; cão não come cão; fraco é o cão que não come a carne que lhe dão; cão com raiva seu dono trava; não acordes o cão quando ele está dormindo; quem acorda cão dormido vende paz e compra arruído; se chegasse ao céu oração de cão choveriam ossos; não são as pulgas dos cães que fazem miar os gatos; quem com cão se deita com pulgas se levanta; cão fraco não merece assobio; ladrar não é morder; na boca dum cão muitas vezes cai um bom osso; com um pedaço de toucinho leva-se longe um cão.
No meio de toda esta preocupação pelo bem estar dos cães, soaram algo insólitas as palavras que Jack Pointer, Presidente da «Defending Dogs' Society» proferiu no encerramento do congresso: «A Lua não ouve o ladrar dos cães.» Aqui, que ninguém nos ouve, devo confessar que discordo frontalmente daquela sumidade mundial. Mesmo tendo de nos precaver com alguns cães, — mesmo os de trela curta— acho que todos eles deverão merecer sempre todo o nosso carinho. Pois então?
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 17 de abril de 1992