TASCA PIROLITO (41)


Cara Prima Alienação, 
Gostei imenso de ler a tua cartinha e saber que estava tudo bem por aí. Demoraste bastante a escrever, mas também mandaste muita novidade. Assim é que é. 
Pois olha que aquilo que disseste sobre a guerra da palmeta entre o Canadá de um lado e a Espanha e Portugal do outro é isso mesmo. Imagina que só agora é que mostram na nossa televisão o tamanho das redes que os canadianos andam a apanhar. Realmente aquilo não se faz. Como a rede é miudinha, é muito apertadinha, só se apanha palmeta miudinha, que depois não cresce e não se multiplica. Afinal onde é que está aquilo do «crescei e multiplicai-vos» que a gente aprende quando somos pequeninos? Ou é só para os outros? Para nós é o «venha a nós o vosso reino»? Acho muito bem o que o Canadá está a fazer. Não há direito que uns se julguem mais espertos do que os outros. Os Portugueses deviam fazer o mesmo aos japoneses. Os japoneses andam a usar redes com malhas esquisitas lá para as bandas dos Açores. Mas eles, coitados, são pequeninos, e a voz deles parece que não chega aos céus. Imagina que Lisboa negociou mais uma vez a base aérea das Lages, lá na Terceira, e não deram cavaco ao Presidente açoreano. E são do mesmo Partido! Talvez haja quem goste de desfeitas destas. Mas para quem está de fora parece mal. Nem parece um país decente. Quando eu estava aí, ouvia-se coisas dessas mas só aconteciam lá para a América Latina... 
E, por falar em mar, sabes que afinal o novo ministro da guerra vai demitir os responsáveis pela bronca — esta é outra palavra nova que aprendi com a vizinha Viperina— do afundamento do tal navio cheio de munições? Tanto alarido, tanto desmentido, tanto barulho, que os media é que andavam a explorar uma coisa que tinha sido feita dentro de todas as normas. Depois começaram a dar à costa uns caixotes cheios de granadas. Depois a televisão conseguiu o filme do afundamento a uma cadeia estrangeira de notícias a mostrar que tinha havido bronca. Agora já há louça partida e só falta rolar meia dúzia de cabeças, como diz o marido da vizinha Viperina. 
Outra bronca é um partido que pôs outro partido em tribunal. Consta que foi por causa de um deputado que duvidou e gozou com as doações que outro deputado europeu andava a fazer a obras de caridade. Como vês, não é só na Ásia e na América Latina que estas coisas acontecem. Por aí, os senadores já fizeram alguma coisa do género? Acho que há uns anos um fez uma coisa semelhante, mas depois pediu desculpa e demitiu-se. E aceitaram a sua demissão. Por aqui parece que é um pouco diferente. Quando há suspeitas, não se demitem. E se pedem a demissão, o chefe não autoriza. Mas isso é política e de política não percebo nada. Além disso ainda estou aqui há pouco tempo e talvez ainda não me tenha habituado. 
Olha, vou ficar por aqui. Espero que continues de boa saúde. E não demores tanto a responder. Recomenda-me às pessoas do costume. Adeus. O primo que te estima, 
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 7 de abril de 1995