Querida Tia,
Gostei imenso de receber a sua carta. Veio mesmo numa altura em que me sentia desanimado e as vossas notícias vieram-me arrebitar.
Pois quanto ao que a Tia diz sobre o papel dos americanos na Bósnia, é verdade. Estou admirado por eles ainda não se terem lembrado de fazer um programa de rádio chamado «Good morning, Bosnia». Desta vez os Portugueses não estiveram com cerimónias e aproveitaram a ideia do famoso «Good morning, Vietnam».
Sobre a tragédia da doença das vacas loucas, a miséria de uns há-de ser o negócio de outros. Disse-me a vizinha D. Viperina que os franceses e os holandeses estão todos contentes e que até mesmo a equipa portuguesa que vai à Inglaterra jogar futebol vai levar carne de cá. Entretanto, o preço do frango está a subir em flecha. Há sempre quem se aproveite...
Fiquei admirado com os acidentes de guindastes e andaimes nas obras da aldeia olímpica em Atlanta. Por aqui não consta que esteja a acontecer coisa semelhante na Expo 98. Lá os acidentes são outros. O novo governo anda a tentar pôr os pontos nos is em muita coisa, e há jornalistas finos e espertos que vêem nisso uma censura ao trabalho do alto comissário. Por seu lado, o responsável máximo já disse que não estava agarrado ao tacho. O pior é que os do partido do dito comissário andam amuados e andam a dizer para o governo ser claro, se o quer que se cale, se não o quer que o demita.
Cada vez mais me surpreendem estes portugueses. E depois é tudo dito com tanta aspereza, com tanta grosseria. Ainda não percebi o que a D. Viperina quer dizer com aquela de Portugal ser um país de brandos costumes.
E por falar em espectáculos, vi na televisão a cerimónia da entrega dos óscares. Mesmo que não quizesse ver, tinha que ver tal foi o bombardeamento nos media daqui. Foi uma semana antes, foi no dia antes, foi no próprio dia, noite e madrugada dentro, tudo em directo. E, não saciados, — bonita palavra que descobri no dicionário—, fizeram um compacto e repetiram tudo no dia a seguir. Sobre o dia da independência deles, — ainda não percebi se eles lhe chamam Restauração ou Camões —, ou do 25 de Abril, não dedicaram nem um terço do tempo. Ao contrário daí, onde tudo o que é nosso é bem festejado que é para se aproveitar e vender bem vendido para fora.
Espectáculo foi ainda o bebé que a mulher do candidato a rei de Portugal teve. Apareceu em tudo o que é media. Se fosse aí na América, o rei aproveitava-se e cobrava copyrights e royalties por cada fotografia do bebé publicada. Podia depois fazer o baptizado em Junho com toda a pompa e circunstância. E com transmissão em directo para todo o mundo, pois claro.
Por cá o PMB tem dado que falar. PMB quer dizer porta-moedas multibanco ou, na nossa língua, pocket money bank. É um cartão de crédito recarregável que serve para pagamentos pequenos. As lojas que aderem ao serviço têm uma máquina que apresentam ao cliente no acto do pagamento. O cliente introduz o cartão, verifica o preço lançado e o saldo respectivo. Muito simples, não é? Pois, mas isto é Portugal. Há quem tenha a máquina escondida, guardada na gaveta por baixo da caixa registadora. Poucos são os que cumprem a lei: trazer ao cliente a maquineta, introduzir cartão, lançar a quantia, etc. O que a maioria faz é levar o cartão e fazer estas operações fora da vista do cliente, de modo que há pessoas que desconfiam. Há empregados de café que quando vêem o cliente estender o cartão começam a dizer mal da sua vida, que é muito complicado, etc. Diz a D. Viperina que o PMB é mais um autocolante para coleccionar nas portas de algumas lojas.
Bem, vou ficar por aqui que a carta está a ficar longa. Desejo a vocês todas uma boa Páscoa, cheia de amêndoas.
Um abraço ao Mr. Perry.
Seu,
Speakeasy
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 4 de abril de 1996