TASCA PIROLITO (63)


Cara Alienação, 
Espero que a minha querida Prima esteja de boa saúde. Por cá tudo bem. Não te tenho escrito porque tenho tido muito que fazer por cá, como a Tia Bizantina te deve ter dito. Quando escrevo para ela é também para ti. Porque é que não tens escrito nada? 
A Páscoa por cá foi bastante chuvosa este ano. A D. Viperina, simpática como sempre, ofereceu-me um folar. Estava delicioso, fez-me lembrar os folares que a Tia Bizantina costumava fazer por esta altura. É espantoso como se consegue pôr 4 e mais ovos em cima de um bolo, meter tudo dentro de um forno a lenha, deixar cozer e tirar tudo inteirinho! Um bom petisco para o vinho tinto, coisa que já aprendi a saborear com os meus vizinhos. 
Fiquei com bastante pena da D. Clementina, irmã da D. Viperina. Sabes o que lhe aconteceu? Pois aconteceu-lhe o que esteve quase a acontecer ao Mr. Perry quando por cá passou. Foi atropelada. Mas atropelada em cima de uma passadeira. E a passadeira é mesmo ali ao pé da Câmara, tão grande e tão larga que algumas más línguas lhe chamam carpete. Segue-se que ela coitada passou a Páscoa no hospital por causa de um carro que não quis parar para a deixar passar, como era o seu dever. Ela, coitada, quando viu o carro avançar, deixou-se ficar parada bem no meio da passadeira, não fosse o condutor fazer como tantos outros habilidosos e espertos que passam pela frente ou por trás das pessoas que estão dentro da passadeira. Resumindo e concluindo — bonita expressão idiomática que aprendi recentemente — o carro foi pimba direito a ela e ela pumba para o hospital. Disseram-me que logo se juntou muita gente, que até o trânsito ficou interrompido durante bastante tempo. Toda a gente a falar ao mesmo tempo e a dizer ao mesmo tempo como tudo tinha acontecido, quem é que tinha tido culpa, etc., etc. Depois veio um guarda, começou a tomar notas e a fazer perguntas e, como quem não quer a coisa — outra bonita expressão idiomática que não vou esquecer — as pessoas que mais tinham mandado bocas foram desaparecendo. Consta que se não fosse um varredor ter dado descanso à vassoura e ter-se prontificado para ser testemunha, o atropelador ter-se-ia ido embora nas calmas. A D. Clementina continua, coitada, com a perna esquerda partida e uma clavícula estalada. Vai ter que ter gesso durante um bom par de meses e tomar analgésicos para disfarçar as dores. 
Sobre isto a D. Viperina disse-me que vai mais uma vez fazer queixa às autoridades competentes porque aqui por Espinho os condutores têm mostrado muito má educação e falta de respeito para com os peões. Há muito tempo que muita gente se tem queixado de que os condutores não abrandam nem param junto das passadeiras para deixar passar os peões, há condutores que passam cruzamentos com as luzes vermelhas acesas, há condutores que entram por ruas em sentido proíbido, há condutores que estacionam no meio de ruas e impedem carros de sair de garagens, etc., etc. E parece que quem devia intervir tem andado ocupado com outras coisas mais urgentes e delicadas ou então tem estado distraído. O pior é quando uma pessoa não está distraída, atravessa uma rua numa passadeira e pimba, é atropelada. Disse-me a D. Viperina que alguns condutores se armam em engraçadinhos e dizem que não são de cá, que não vêem bem as passadeiras. É verdade que as passadeiras têm andado um bocado desbotadas. Dizem que a tinta é da melhor qualidade e é aplicada pelos melhores pintores da região que usam o equipamento mais sofisticado que há e os métodos mais avançados que há. Mas o certo é que, segundo a D. Viperina, há imensas forças de bloqueio que andam sempre a tramar as pobres das passadeiras. É a chuva, é o vento, é a nortada, é o sol, é a salitre do mar, são os pneus, sabe-se lá que mais! Coitadas das passadeiras, perdem força e quase não se vêem. Se fosse aí na América já tinhamos feito uma colecta, tinha-se arranjado umas latinhas de tinta e uns voluntários para pintar as passadeiras. Aqui a Câmara é que tem de fazer tudo, coitada. 
Outra coisa que foi muito falada por cá foi o congresso do partido conhecido por laranja. Os media deram-lhe bastante importância. Fez-me lembrar as primárias aí. A D. Viperina, que é perita nestas coisas, disse-me que houve um derrotado e um vencedor. O derrotado perdera poder no partido depois de já ter perdido a aposta num clube de futebol e de se ter divorciado de novo. Muita derrota junta, coitado. O vencedor é de se lhe tirar o chapéu — outra expressão idiomática que aprendi a semana passada. Dizem que consegue escrever dois textos ao mesmo tempo com as duas mãos. Sai bem ao leader anterior, que era mestre na arte de bem trepar a todo o coqueiro, timoneiro e inventor das célebres forças de bloqueio, sem tempo para ler jornais, sem dúvidas e campeão da ingestão de bolos-rei. 
Por agora é tudo, que a carta já está bem compridinha. Passa bem, diverte-te. E escreve qualquer coisa. Beijinhos, 
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 12 de abril de 1996

Legenda:
'consegue escrever dois textos ao mesmo tempo' - Marcelo Rebelo de Sousa
'mestre na arte de bem trepar a todo o coqueiro' - Cavaco Silva