TASCA PIROLITO (42)


Caro Speakeasy, 
Espero que estejas de perfeita saúde e que continues a dar-te bem por aí. 
Por cá a grande novidade foi a bomba de Oklahoma. Bem vistas as coisas, não deve ser grande novidade para ti, porque uma bomba destas, e ainda por cima na América, de certeza que foi badalada por aí. Ainda hoje, passadas semanas, ninguém se acredita como é que isto aconteceu, mesmo nas barbas do FBI, que é uma polícia melhor que a que tendes aí na Europa, não é a Scotland Yard? Coisas destas nunca tinham acontecido por cá, pelo menos tão grande. A gente só costumava ver coisas dessas lá fora, lá na América Latina ou aí para os vossos lados, no Médio Oriente. Aqui, nunca, ainda por cima no coração da América. 
É muito esquisito, dizem os experts, isto não devia ter acontecido porque já não há comunismo, já não há países comunistas, já não há o muro de Berlim, e era daí que se devia ter medo, disseram sempre os nossos governantes, e à pala disso gastou-se imenso dinheiro em arruamentos. O certo é que enquanto eles andaram por aí nunca nos puseram bombas como a de Oklahoma. Espero que não ponham mais nem comecem a brincar com gases nos metropolitanos como lá no Japão. Enfim, esta coisa de bomba até parece que fez a gente esquecer-se da telenovela do julgamento do OJ Simpson... 
Na tua última carta disseste que o vosso Presidente da Câmara tinha vindo cá à América, que isso tinha sido muito badalado pelos vossos jornais, rádios e televisões. Pois olha que mal me avisaste, eu passei a andar atenta. Nem uma palavra, nem uma imagem nas nossas televisões. E tu sabes como são os nossos canais locais, tal é a concorrência, mostram tudo. 
O ano passado o vosso João Jardim veio cá e não foi preciso ele vestir-se de macaco para a televisão da Rua 44 o filmar, ainda por cima mostrou-o à hora do jantar. Do vosso, nem uma palavra. Ele não deve ter gostado muito porque, segundo diza a tua carta, ele gosta de se gabar que só agora, depois de ele ser presidente, é que Espinho é conhecido e falado por tudo quanto é sítio. Parece que isto por aqui ainda não é sítio, porque se o fosse tinham falado dele. 
Também se deve dar um bom desconto aos calafonas. Isto é grande, a gente mal conhece isto tudo, quanto fará o que há aí para fora. Alguns doutores até nem sabem apontar no mapa onde fica a Europa, quanto mais Espinho, terra de cinco freguesias e 35 mil almas. Aqui estamos habituados a centenas e a milhões. De gente e de dolas. Olha, cuida de ti, até à próxima. 
A Tia que muito te estima,
Bizantina.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 12 de maio de 1995