ENTRE A HORTA E A PORTA
Embora criticando duramente a gestão camarária, o PS garantiu não querer ser força de bloqueio. Esteve contra o Relatório de Actividades mas absteve-se na Conta de Gerência. O CDS voltou a colocar-se geoestrategicamente ao lado da Câmara. E os documentos passaram.
A Câmara fez aprovar por maioria o Relatório de Actividades e a Conta de Gerência de 1992 na reunião extraordinária da AM de 31 de Maio, convocada para o efeito.
Depois de Correia de Araújo declarar estar «geoestrategicamente mais próximo da Câmara», coube ao PS e à CDU criticar vivamente os dois documentos.
António Lacerda (PS) começou por reconhecer que houvera sobranceria por parte da Câmara e que a sua actuação em áreas como a habitação, a cultura e a animação turística tinham sido responsáveis pela sua má imagem pública. Elogiou, todavia o aumento de 25% nos investimentos durante os dois últimos anos, permitindo a execução das obras de saneamento, «com um milhão de contos investidos só em 92».
A Câmara não pode tapar-se com o saneamento, a ETAR e o exutor submarino», disse Carlos Gaio, depois do seu colega de bancada. Segundo ele, as obras do saneamento tinham sido preparadas por executivos camarários anteriores. De resto, a política desta Câmara fora «desastrosa nas contrapartidas do jogo, no turismo e no ambiente». E, antes de propôr um intervalo «para aferição de estratégias de voto», foi prevenindo que «o PS tem procurado não ser uma força de bloqueio».
Mão escondida
«O PS atira a pedra e esconde a mão», começou depois Rui Abrantes (CDU), acrescentando que o PS criticava muito, apresentava muitas alternativas, mas que, na hora da verdade, deixava invariavelmente passar Planos, Orçamentos e Contas gravosas para os interesses do Concelho. Para aquele Vogal, a CDU estava a ser coerente. Já tinha votado contra o Plano de Actividades e o Orçamento para 92 porque previra alguns dos resultados agora expostos, nomeadamente o excesso de dinheiro em horas extraordinárias, a não expropriação dos terrenos para o Parque da Cidade e o buraco financeiro.
«A diferença entre o PS e o PSD é que ao PS falta-lhe o D. Um vai à horta e o outro fica à porta», disse a certa altura Jorge Carvalho (CDU) referindo-se, segundo alguns observadores presentes, à colagem dos socialistas na Assembleia ao seu Vereador no Executivo, Rolando de Sousa. E, depois de denunciar o não pagamento de facturas de Janeiro de 92, justificou a sua posição pela falta de humildade da Câmara ao não reconhecer erros cometidos e mostrar indiferença e desprezo pelas várias sugestões da Assembleia.
O único a defender a sua dama foi Ricardo Catarino (PSD). Depois de considerar que as verbas tinham sido «bem destinadas», aquele vogal afirmou que, infelizmente, o destino dera razão à CDU, que votara contra a alienação dos terrenos em Paramos e dos 34 fogos da Marinha.
Postos finalmente à votação, o Relatório de Actividades viria a colher 13 votos favoráveis (PSD + CDS), 10 contra (PS +CDU) e 2 abstenções (PS — António Lacerda e Abel Gonçalves), enquanto a Conta de Gerência merecia 15 votos a favor (PSD +CDS + 2 PS — António Lacerda e Abel Gonçalves), 3 contra (CDU) e 7 abstenções (PS).
Respeitinho
O PS fez em seguida aprovar duas moções. A primeira, que viria a merecer a unanimidade, requeria o ponto da situação sobre os encargos assumidos e não pagos (408.792 contos), devidamente actualizado e posto ao dispor da AM na sessão de Junho, e recomendava a elaboração e publicitação de um plano de tesouraria capaz de assegurar até ao final do ano o equilíbrio das finanças municipais.
A segunda moção denunciava e lamentava a recusa ao diálogo e o desrespeito da Câmara por uma deliberação da Assembleia de Junho de 92 solicitando informação sobre a execução orçamental de forma a acompanhar e avaliar a evolução da política municipal com posse de todos os elementos necessários. Enquanto o CDS, a CDU e o PS votavam a favor, o PSD votava contra e um membro da mesa abstinha-se.
Manuel Laranjeira: mude de rumo!
Findos os trabalhos, foi gostoso ver os Vogais sair sobraçando os dois volumes das Obras Completas de Manuel Laranjeira, oferecidos pela Câmara.
Já Jorge Carvalho se apoiara no seguinte extracto da peça «As Feras», publicado em 1905 por aquele escritor, para concluir a sua crítica à gestão camarária:
«Juiz: Qual é a sua profissão?
Acusada [Joana]: Moça de servir.
Juiz: Criada — isso era dantes! Agora? Acusada: Agora... ando na má vida.
Juiz: Mude de rumo! Esse caminho é mau: só a pode levar a um abismo — ao hospital ou ao degredo. Mude de rumo.
Acusada: Tomara eu! Que não há vida pior do que esta minha desgraça. Isto não é destino — eu bem sei. Mas mudar de rumo... — Oh, quem pudera!
Juiz: É fácil, basta querer.
Acusada: Não basta, não!
Juiz: Então que é preciso mais?
Acusada: Era preciso que o mundo não fosse tão ruim, como é. Que os outros não nos empurrassem tanto! Quando todos empurram e ninguém nos dá a mão — o remédio é cair. É sina!»
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 11 de junho de 1993