PALAVRA DE ONTEM
Correira de Araújo partiu a loiça. Tudo porque o deixaram isolado a exigir mais transparência e mais eficácia da Câmara na transferência de competências. Precisamente depois dos Presidentes das Juntas lhe terem contado cobras e lagartos sobre as suas relações com a Câmara. Chocado e enganado, Correia de Araújo disse que não pactuava mais com... Assembleias abertas.
Já quente, o serão de 5ª feira passada, 23 de Maio, foi ao rubro na Junta de Freguesia de Guetim quando Correia de Araújo declarou não estar disposto a participar no debate e aprovação de questões relacionadas não só com Guetim mas também com outras Freguesias, onde num futuro próximo a Assembleia vai reunir.
Em causa estava uma recomendação sua para a Câmara ser mais transparente e mais eficaz na transferência de competências para as Freguesias. Isto é, devia haver mais abertura e mais diálogo uma vez que os Presidentes de Junta se tinham queixado a Correia de Araújo de a Câmara lhes ter criado expectativas que acabavam sempre por sair goradas.
Deus ex machina
Agora, chegada a hora de discutir e votar, apenas se via apoiado por Luís Montenegro e JorgeAlves, ambos do PSD. O Presidente da Junta de Freguesia de Guetim dizia que «sempre houve abertura e diálogo por parte da Câmara» (sic). A prova disso é que, por feliz coincidência, a Junta recebera naquele mesmo dia 16.000 contos da Câmara para pagar projectos em execução.
Araújo isolado
Contribuindo ainda mais para o isolamento de Correia de Araújo, Rolando de Sousa justificava o atraso na transferência de verbas devido a problemas de tesouraria. Então não sabiam que entre Janeiro e Junho as receitas da Câmara vinham apenas da água e da Feira semanal? Não sabiam que a Câmara ainda não recebera os duodécimos de Janeiro? Toda esta demora devia-se, segundo Rolando de Sousa, em parte ao atraso na aprovação do orçamento de Estado e em parte à mudança de Governo. Também não havia motivo para alarme na demora em pagar ao empreiteiro do Complexo Desportivo de Guetim: «O empreiteiro ainda não facturou um centavo e a Câmara ainda não pagou um centavo», tranquilizou Rolando de Sousa. Era tudo muito natural: «É normal a Câmara ter intenções de fazer coisas e, para isso, inscrever verbas no Plano. Mas isso não que dizer que se vá executar todos os projectos», esclareceu ainda aquele Vereador.
Tudo bem
Mas não bastaram as posições de Alfredo Rocha e de Rolando de Sousa para isolar Correia de Araújo. Carlos Gaio (PS) protestou contra a alegada «ferroada encapotada» e Saudade Manso Preto, depois de passar a recomendação a pente fino, concluiu que tudo não passava de «uma tirada narcisista» e de «má língua»: «Não há factos comprovados. Até agora nenhum Presidente de Junta veio aqui queixar-se de que a Câmara lhes tinha dito que não pagava», afirmou a vogal da CDU. Posta à votação, o documento viria a ser rejeitado por larga maioria. Mais tarde, e a propósito de «trabalhos a mais» no Complexo Desportivo de Guetim, Correia de Araújo não se continha e, com alguma veemência, dizia: «Pois, com 16.000 contos na mão está tudo bem. Sinto-me enganado e chocado com o que se está aqui a passar. Os Presidentes de Junta disseram cobras e lagartos sobre as relações com a Câmara, mas afinal parece que está tudo bem. E se está tudo bem, não contem comigo para ir a outras freguesias discutir problemas». E, por momentos, abandonava a sala.
Bancada nova
Sobre a bancada do Complexo Desportivo, havia que consolidar o talude existente porque as chuvas tinham-no desgastado. Se não se fizesse a obra ainda na primeira fase, estaria comprometida a construção da respectiva bancada do topo norte. Só que estes «trabalhos a mais» representavam um acréscimo de 7.000 contos sobre o orçamento inicial. E era por isso que Alfredo Rocha pedia o reforço do orçamento para a tão necessária e urgente obra. Esclarecida e motivada, a Assembleia aprovou por unanimidade.
Ruas eleitas
Alfredo Rocha conseguiu ainda ver aprovado por unanimidade o pedido de transferência do dinheiro que estava previsto para a futura Rua do Rochio para melhorar as Ruas de N. Sr.a da Guia e da Colombofilia. Entretanto, Rolando de Sousa, foi dizendo que lá para o fim de Setembro a Câmara ia pôr a concurso uma série de projectos de arruamentos a executar em 1997. Pois claro, 1997 ia ser uma maravilha, atalhava Manuel Osório. Eleições à porta...
Regionalização adiada
O PSD, através de Manuel Osório, tentou introduzir o debate sobre regionalização. A moção pretendia que a Câmara promovesse reuniões sobre o tema de modo a esclarecer a opinião pública sobre tão candente assunto.
Aparentemente inócuo, o documento mereceu a crítica imediata de Correia de Araújo. É que, em 1992, num Forum da Rádio Globo Azul, tanto o PSD como o PS se tinham manifestado contra um referendo sobre o Tratado de Maastricht. Era espantoso como em três anos os dois partidos tinham dado tão grande cambalhota. Jorge Carvalho (CDU) atacava por outro flanco: o PSD não respeitara o acordo sobre os assuntos a discutir na Assembleia e introduzira um assunto fora do âmbito local.
Perante o impasse, Manuel Osório acabaria por levantar o documento, para, após a discussão dos pontos da ordem do dia, o reintroduzir. Mas a regionalização estava em dia não.
Acabaria por ser retirada devido ao adiantado da hora. Não nos admiraríamos de a ver um dia «reciclada» noutras circunstâncias e noutro tipo de embalagem. Se tal vier a acontecer, não terá sido a primeira vez que o PSD se queixa.
PGU para quê?
Manuel Osório retiraria do debate ainda outro documento exigindo um Plano Geral de Urbanização (PGU) para Guetim. Rolando de Sousa, solícito e peremptório, informou: «Não faz sentido um PGU para Guetim. PGU só para grandes áreas e Guetim é pequena. Já está tudo definido no PDM. Do PDM vamos logo para o Plano de Pormenor, que é mais rápido. Se o que o Sr. Manuel Osório quer for aprovado, vamos andar para trás.» E Manuel Osório não quiz que Guetim andasse para trás. Retirou o documento. Os Guetinenses ficam a saber que a sua Freguesia é tão pequena que nem merece um PGU!
Secretário cobrador
No período destinado ao público, interveio Maria Fernanda Ramos para manifestar a sua perplexidade: se Guetim era pequeno e os problemas eram pequenos, então deviam ser mais fáceis de resolver, o que não se tinha verificado. Por exemplo, o Secretário da Junta tinha andado pelas empresas a cobrar a taxa da publicidade para ajudar a pagar compromissos assumidos pela Junta!
Depois foi a vez de Joaquim Sá, para agradecer a Jorge Carvalho por ter provocado o debate sobre o Complexo Desportivo. Mas levantou um dedo acusador: tinha dúvidas se o que tinha sido votado era realmente do conhecimento dos vogais. É que ele não tinha a certeza se os vogais sabiam realmente que tinham votado uma bancada que não estava prevista no projecto inicial. (...)
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 31 de maio de 1996