SEM OVOS
«Esta Câmara é centralista, não confia nesta Junta e por isso não disponibiliza verbas, não transfere verbas, nem investe em Anta. E sem ovos não se podem fazer omeletes», afirmou Jorge Alves (PSD) manifestando a sua insatisfação pelo facto das Receitas realizadas em 1995 terem ficado abaixo de metade do que tinha sido previsto no Orçamento de 1995.
Discutia-se, em 26 de Abril, a Conta de Gerência de 1995. E, mais uma vez Jorge Alves protagonizava uma série de críticas repisadas às incorrecções técnicas do documento, cuja elaboração estivera a cargo de Rui Loureiro (PS), do Executivo da Junta. Mas a Conta de Gerência foi pretexto para aquele vogal social democrata dirigir uma crítica contundente ao comportamento de uma Câmara que, segundo o manifesto socialista, apregoava e defendia a regionalização e a descentralização mas na prática fazia precisamente o contrário: era centralista, não transferia verbas para Anta e não fazia investimentos na Freguesia.
João Félix, Presidente da Junta, corroborou. A Junta sentia-se impotente para realizar as actividades planeadas uma vez que o apoio da Câmara era escasso e, mesmo assim, só conseguido após muita insistência. Era certo que a iluminação pública tinha melhorado substancialmente, especialmente na zona do Bairro da Ponte de Anta. Mas o resto era um rosário de amarguras.
ABUSO E IGNORÂNCIA
Era um abuso grave uma máquina ao serviço da Câmara ter entrado num terreno da Junta e ter começado a trabalhar sem conhecimento da Junta. Era intolerável não se dar conhecimento à Junta dos projectos que iam ser executados em Anta: dir-se-ia que os Antenses eram ignorantes na sua própria terra. Eram precisos inúmeros pedidos e ofícios para se compôr meia dúzia de paralelos soltos. Feito o saneamento básico em algumas ruas, tudo fora destruído pelos pesados camiões que andavam na obra da Nave. Nunca se via fiscais da Câmara a fiscalizar as obras.
«Até agora a grande preocupação da Câmara foi a Nave. Dentro de dias é o Verão e os funcionários da Câmara vão todos trabalhar para a praia», desabafou João Félix expressando o receio de ver, entre outras coisas, as ruas da sua Freguesia «entregues à bicharada», sujas e cheias de mato. «Espinho não deve ser só até à Rua 32», disse ainda. «Pois, só a sala de visitas de Espinho é que parece merecer atenção», acrescentou António Gomes «Russo» (CDU), «gastaram-se 60.000 contos só no Largo da Câmara enquanto que no Bairro da Solverde é o que se vê.» Posta à votação, a Conta de Gerência viria a merecer 4 abstenções do PSD.
O PSD fez depois aprovar por unanimidade uma recomendação no sentido da Junta proceder à reparação urgente dos arruamentos à sua responsabilidade e da Junta pressionar a Câmara a fazer o mesmo em relação às suas estradas.
INTERESSES LOCAIS
Em segúida, o Presidente respondeu a diversas questões levantadas pelos vogais. O problema das descargas de águas chocas, do tractor cisterna para uma caixa na Rua do Gavião, havia de ser resolvido. A Junta não estava interessada em ficar responsável pelo Campo de Cassufas enquanto a Câmara não instalasse luz eléctrica nele. A Junta já tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para tentar resolver questões relacionadas com a falta de segurança dos peões nas Ruas 19 e 33. Está em estudo um sistema de distribuição de tráfego no cruzamento da Rua 19 com a Rua da Igreja. É que um jogo de semáforos é caro: 5.000 contos.
RABOS DE PALHA
«Quem critica também tem rabinhos de palha», afirmou Fernando Fernandes «Padeiro», um dos intervenientes do público presente. Referia-se, como se viu depois, às críticas de Jorge Alves ao trabalho do Executivo desta Junta. Contra-atacando, disse que não eram graves os erros técnicos da Conta de Gerência: «Grave é esta Junta andar a pagar contas ilegais, situações criadas pelos dois executivos anteriores onde até estavam duas pessoas licenciadas».
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 3 de maio de 1996