Regionalização

ASSIM, NÃO!

Ilustração por IA extraída por 
Paul Nunesdea

Ao tratarem a regionalização como o têm feito, os Partidos e os Deputados deste país têm dado um péssimo exemplo de como não se deve fazer política e, essencialmente, de como não se deve estar e ser em democracia. 
O povo, pelo menos o mais atento e esclarecido, já não vai facilmente em acrobacias ou em estratégias de biombo há muito esgotadas. O povo precisa de outro reportório. Depois de vinte anos de experiência democrática e de muitas cabeçadas e muitos erros, aprendeu a pensar pela sua própria cabeça. Não tolera que alguns políticos, passado todo este tempo, ainda se julguem os únicos iluminados e detentores exclusivos da luz da razão. Não tolera que o tratem como sendo de menoridade e incapaz de parar para pensar. Não tolera que haja ainda políticos que pensam que fazer política é lançar meia dúzia de frases feitas vazias de sentido. E que tudo fazem para que 
essas "ideias"(?) sejam amplificadas e repetidas por alguma comunicação social para quem a prestação de um serviço público de grande responsabilidade parece ser pretexto para a exibição de vaidades e protagonismos balofos e ridículos. 
Desenganem-se redondamente os políticos que assim pensem. Não é com manobras deste tipo que se avança para a regionalização, empolando questões que, de momento, não são prioritárias, como por exemplo saber se o referendo deve ser nacional ou regional. Dar importância a questiúnculas deste tipo poderá ser entendida como uma simples manobra de diversão, uma maneira maquia-vélica de distorcer e manipular a realidade ou, porventura, encobrir ou camuflar interesses ou manobras mesquinhas. Por outro lado, abandonar o debate sem apresentar alternativas credíveis poderá ser tida, na melhor das hipóteses, como puro oportunismo. 
Para se poder, seriamente, decidir sobre uma questão tão importante como a regionalização, não há que ter pressas. A experiência tem demonstrado que as pressas dos políticos só servem para o povo se sentir iludido e desiludido perante factos consumados. As pressas dos políticos têm demonstrado que os únicos beneficiados são eles mesmos, os políticos e, por simpatia partidária, as suas clientelas mais próximas. Estando por dentro dos assuntos, entusiasmam-se e esquecem-se que o povo precisa de algum tempo para se informar, como eles. 
É, pois, preciso saber-se do que se está a falar. As opções que vierem a ser tomadas sobre a regionalização só terão sentido depois de se fazer uma coisa tão simples como o ovo do Colombo: elaborar uma definição clara do que é ou deve ser a regionalização. Os políticos que sejam claros, que digam claramente o que isso implica em termos de partilha de poder político, económico, cultural, etc. De uma vez por todas. Para que toda a gente saiba do que se está a falar. 
A continuar a presente fantochada, será mais salutar, económico e ecológico enterrar a 
regionalização e o debate sobre ela. Até porque numa época de globalização galopante, com faxes, telemóveis, video conferências, parabólicas e internetes, será talvez comiserador ter de assistir ao espectáculo de alguns aprendizes de feiticeiro esfarraparem-se por dividir, partir, baralhar, dar de novo e, no fim, voltar ao mesmo: tudo como dan tes...

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 10 de maio de 1996