Querida Prima Alienação,
Faço votos para que a Prima esteja de perfeita saúde. Por cá o tempo tem andado meio avariado, mas quanto a saúde, tudo bem. Novidades também não faltam.
O que deu que falar na última semana foi o casamento do descendente dos antigos reis de cá. Imagine que deixaram ele casar-se nos Jerónimos, que é cá o maior símbolo do país, no dia 13 de Maio que é para os católicos de cá como o 4 de Julho. De modo que o casamento desviou um bocado as atenções do 13 de Maio em Fátima, com todos aqueles peregrinos a andar de joelhos para cumprir promessas. A minha vizinha Viperina disse-me que até as televisões de cá mandaram mais cameramen para os Jerónimos do que para Fátima. Aqui está outra coisa que ainda não compreendi neste país, darem tanta atenção a um casamento destes quando, diz a minha vizinha, já lá vão mais de oitenta anos, deitaram abaixo a monarquia. Imagine que até alguém queria expulsar um grupo de arqueólogos que estão no relvado à entrada dos Jerónimos a protestar contra uma barragem que, se for por diante, vai afogar uns desenhos rupestres que até os ingleses do Times dizem que é o que de melhor há no mundo. Nunca se soube quem é que queria os arqueólogos dali para fora, mas dizem que o Duarte Nuno meteu a cunha - esta é a última pa lavra nova que aprendi com a vizinha Viperina - na Polícia para os deixarem lá no relvado durante o casamento.
Sobre os desenhos rupestres, tem havido confusão nos últimos dias. Os tais que estão no relvado dos Jerónimos fazem greve de fome e pernoitam em tendas. Mas é tudo caça grossa, como diz a vizinha Viperina. É tudo advogado, arquitecto, deputado. De modo que quando a Polícia foi lá para os expulsar, meteu água porque pensava que estava a falar com ignorantes na lei. Foi uma risota. Acho que alguém puxou as orelhas à televisão porque só mostraram uma vez o polícia a meter água. Depois, a BBC, a tal televisão inglesa que dizem que é a melhor do mundo, queria filmar as gravuras, mas o presidente de um instituto pediu muito dinheiro, depois baixou a oferta se a BBC passasse o filme que o instituto já tinha feito. Uma confusão dos diabos, com um secretário de estado a desautorizar o presidente do tal instituto dizendo que as filmagens deviam
ser livres, ainda por cima para a BBC divulgar o património pelo mundo inteiro, e depois com o presidente do instituto a dizer que não tinha sido desautorizado. O que é certo é que parece que os de fora é que vão, mais uma vez, fazer dinheiro à custa de coisas boas que há por cá. Até disse à minha vizinha que se essas gravuras tivessem aparecido aí, o Spielberg já estaria a fazer um filme, já teríamos exportado documentários para serem passados nas televisões de cá e de outros países, e já estaríamos a cobrar entradas para verem aquilo, já haveria hamburgers, icecreams, souvenirs, roller-coasters, enfim, estaríamos a fazer dinheiro com a ajuda das nossas televisões e os nossos agentes de viagens. Por cá parece que prefe- rem trabalhar por conta dos estrangeiros. Opções ...
Olhe, por agora étudo. Continue de boa saúde e veja se me escreve umas linhas.
Seu,
Speakeasy
Espinho Vareiro, 19 de maio de 1995