TASCA PIROLITO (5)

 Iconófilos, radicícolas e seráficos

Como é estimulante passar uma tarde inteira numa Repartição de Finanças, especialmente numa fila compacta para entrega da decla ração do IRS. 
Todas as preocupações e todo o cansaço se dissipam milagrosamente em ambiente tão acolhedor. 
É nestas alturas que a Repartição de Finanças se torna o lugar por excelência do culto da imagem de um poder que suga parte das seivas individuais para depois poder alimentar a raíz comum. Invariavelmente em vésperas de eleições, claro, pois amor com amor se paga a quem costuma deixar para o fim declarar ou pagar impostos. 
O silêncio cefalópode é momentaneamente interrompido por desabafos do tipo «Agora não é altura para tirar dúvidas», «Não há anexo A, não tenho culpa!», «O anexo A deve chegar daqui a pouco», «Porque é que deixaram para a última?» e «Porque é que há tão pouca gente a atender tanta?». 
A lentidão gastrópode anima-se temporariamente com confidências do género «Na minha área os fiscais passaram os restaurantes a pente fino: um teve que pagar uma multa de mil e tal contos porque o café consumido não correspondia ao número de refeições servidas» e «Para o ano já lhes digo como é». 
Um pouco àparte, pequenos grupos de paquetes, enviados por agências de contabilidade, apanham rabecadas dos eminentes funcionários pelos erros detectados nos boletins a seu cargo. 
É por tudo isto e muito mais que sou um fervoroso frequentador de Repartições de Finanças. Chego mesmo a perguntar-me o que seria de nós sem estas Vestais...
Speakeasy Jones

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 15 de maio de 1992