QUEM TEM MEDO DAS SUCATAS?
Diariamente consumimos inúmeros produtos. E, numa sociedade de consumo a que muitos se orgulham de pertencer, não se pode escamotear este facto: quanto maior é o poder de compra, mais se consome, e quanto mais seconsome, mais lixo e mais sucata se produz. Inverter esta situação significaria acabar com este tipo de sociedade, rejeitar o conforto a que nos habituamos e não acreditamos que as pessoas queiram ir por esse caminho.
E vão oito
No concelho de Espinho foram aparecendo sucatas para receber e reciclar os restos do nosso consumo em termos de metais. São, neste momento, cerca de uma dezena, ninguém sabe ao certo. Todas ainda sem alvará, porque a questão é 'complicada'. A legislação dispersa já foi "arrumada" e é exigente, especialmente para quem, até agora e à boa maneira portuguesa, só viu a lei ser exigente e ser cumprida no estrangeiro e nunca acreditou que a moda chegasse aqui.
Contradições
Para complicar ainda mais a questão, alguns há que dizem que Espinho não deve ter sucatas porque é um concelho pequeno. Assim, para além de complicado, o assunto passa a ter piada. Por um lado, Espinho orgulha-se de ser um dos concelhos da Área Metropolitana do Porto com maior rendimento per capita, e, consequentemente, orgulha-se do seu poder de compra, do seu nível e qualidade de vida. Por outro lado, parece que alguns têm vergonha dos restos que ficam na beira do prato e tudo fazem para os despejar para debaixo da mesa do vizinho mais próximo. Trata-se de uma contradição que em nada abona uma cultura que se diz civilizada e que, por isso, urge resolver a bem da qualidade de vida por que somos responsáveis e a que temos direito.
A gestão dos restos que produzimos deve, pois, merecer a maior e a melhor das atenções, não apenas por parte dos responsáveis políticos, mas também por parte do simples cidadão- consumidor. Foi nesse sentido que "ESPINHO VAREIRO" se meteu a caminho e falou com os responsáveis pelas sucatas que conseguiu localizar e identificar no concelho. Não para registar e carpir insuficiências várias, mas para colher e transmitir informações ao (à) leitor(a) sobre a diversidade de situações existentes e passíveis da formação de um melhor juízo sobre as opções a tomar.
A rota da sucata
A nossa investigação revelou, no concelho de Espinho, a existência de oito sucatas operacionais dignas de registo, três que poderão ser consideradas irrelevantes pelo reduzido ou quase nulo volume de sucata e uma aparentemente desactivada (Rotāo, Silvalde).
Estão assim distribuídas: três em Silvalde (Apeadeiro, Rua do Loureiro e Travessa de Miros), três em Anta (Travessa da Cavada Velha, Rua da Cavada Velha e Agro Velho, junto ao ICl) e duas em Guetim (ao pé da Gruta da Lomba e ao pé da Euroespuma).
Apenas três se dedicam quase exclusivamente a sucata automóvel (Silvalde), sendo as restantes de electrodomésticos e ferro em geral, e uma de papel (Agro Velho). Apenas uma não se mostrava vedada (Trav. de Miros) e duas estão implantadas, segundo informações presTadas pelos responsáveis nos locais, em terrenos emprestados para o efeito (Apeadeiro de Silvalde e Guetim, Lomba).
Problemas
Quatro das sucatas ocupam e vedam área do domínio público hídrico, isto é, parte da sua vedação impede, por um dos lados, a circulação de pessoas e bens numa faixa de cinco metros ao longo de Ribeiras: a da Lomba, a do Rotão, a da Travessa da Cavada Velha e a da Rua da Cavada Velha. Problemas pessoais e privados sérios nenhuma os teve, nem mesmo a mais velha, na Travessa de Miros (35 anos), neste momento gerida por José Carlos Carvalho. Os únicos problemas foram roubos de baterias, jantes, ferramentas e outros objectos, ou até mesmo a morte, por envenenamento, dos dois cães de guarda na sucata do apeadeiro de Silvalde neste momento gerida por José Lameiras e, segundo Fernando Simplício, em fase de extinção devido ao estado de saúde do primeiro.
Apenas a sucata da Rua da Cavada Velha parece ter-se envolvido em conflitos com vizinhos a partir do momento em que começou a dar passos largos no sentido da sua industrialização e ultrapassagem de uma situação de depósito temporário de sucata, como é o caso da generalidade das suas congéneres locais. A instalação de maquinaria específica de compressão, enfardamento e corte terá provocado baixas acentuadas na rede de energia eléctrica na zona, tendo, na altura, dezenas de vizinhos feito eco das suas preocupações por alegados prejuízos nos seus electrodomésticos.
Sucata na ribalta
Mas os conflitos com os vizinhos não ficaram por aí. Desenvolveram-se na sequência da aquisição de um terreno por parte de um vizinho adversário da sucata, terreno que também era pretendido pelo seu proprietário, Manuel Natário e que, na sequência da tentativa de delimitação, teve honras de tratamento judicial. E, de processo em processo, a sucata da Rua da Cavada Velha saltou para a ribalta da Assembleia Municipal pela mão do seu vogal Jorge Carvalho, na sequência de diversas queixas que os vizinhos lhe fizeram chegar por causa de fumos e ruídos.
Manuel Natário diz estar pronto para tudo. Orgulhosamente, exibe o processo organizado para pedir alvará, mas lamenta que ainda não lhe tenham respondido Mas uma fonte garantiu ao "ESPINHO VAREIRO" que o pedido foi indeferido porque a área onde está implantada a sucata faz parte da reserva agrícola, aliás bem defenida no PDM aprovado por unanimidade pela Câmara anterior e reconhecido pelas entidades competentes, inclusive a CCRN.
Manuel Natário diz-se disposto a tudo fazer para regularizar a situaçáo. Exibe um pedido de viabilidade dirigido à Câmara, datado de 18 de Junho, em que mostra interesse num terreno de 3.000 m2, na Estrada de S. Tiago, em Paramos, para ai instalar a sua sucata. Só que, diz ele, lhe pedem 30.000 contos pelo terreno e isso é muito para ele, a não ser que a Câmara o ajude.
Enfim, um caso a seguir com interesse. Até porque Manuel Natário, que recebe sucata da Madeira e dos Açores e tem contratos com pequenas empresas para trabalharem para ele, nomeadamente no desmantelamento de navios em Aveiro e em Peniche, fez questão de dizer que facturou 100.000 contos em 1996, e, segundo Paulo Natário, seu filho e sócio gerente, 700 contos foram apenas para o IVA referente a Maio deste ano.
E, confiante, diz que se tudo se esclarecer e normalizar, poderá contratar mais cinco empregados para além dos sete que diz trabalharem na sucata, e a adquirir uma máquina francesa que comprime automóveis e os corta aos bocadinhos.
É esta, pois, a situação presente. Para não falar da "Sucata Estrela 23", aquela que vai havendo em frente à Polícia, na rua 23, e da "Sucata Brandão Gomes", guardiã temporária e provisória, dizem as autoridades locais, de veículos abandonados na via pública.
Situação que, repetimos, urge resolver, assumindo as nossas responsabilidades e garantindo a qualidade de vida a que temos direito.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 27 de junho de 1997