Nota da Semana

CULTURA? NÃO, ANTES: PÃO E DIVERTIMENTOS


Recorremos ao clássico provérbio latino de «pão e divertimentos», que preocupavam mais a ambição do poder dos imperadores, para amansar o povo, do que dar-lhe ou ao menos permitir-lhe coisas sérias. E recorremos, contrafeitos, por força de um estado de coisas que se mantêm a 2.000 anos de distância. 
Será fácil culpar o povo de não comparecer às iniciativas culturais que, quase a medo, alguém vai tentando levar a efeito. 
Mas aqui tem cabimento o dito que ouvimos há dias a um jovem comprometido num Sector de Cultura: «Se dermos às pessoias grão de bico todos os dias, elas ignoram que há coisas melhores... Depois, acontece o que acontece. 
Uma banda oferece um Concerto ao  seu público, e este resume-se a menos de uma dúzia de pessoas... (Entretanto, são algumas centenas que vão pagando as quotas, e algumas dezenas que protestam a sua paixão pela Banda e Pela música...) 
Um grupo de Teatro oferece uma peça de qualidade, e tem de sair à Rua acordar alguém», rufando os tambores, para não representar para a sala vazia. (E muito boa gente lamenta quando calha que se houvesse um bom teatro...) 
Uma equipa de profissionais da saúde promove um colóquio de interesse geral, e contam-se pelos dedos os interessa dos participantes. (No entanto, as safas de espera da Caixa e dos consultórios todos os ditas têm farta e... doente clientela). 
Uma associação ecológica organiza um trabalho sério para defender a Lagoa e Barrinha, e nem os autarcas (convidados) a quem o problema diz respeito se dignam comparecer...  
E os exemplos poderiam continuar. Como recentemente aconteceu na elaboração do programa das comemorações dos 10 anos de Espinho-Cidade. Programa alinhavado à pressa e com alterações de última hora. 
Aqui, como noutras circunstâncias, será só o povo culpado? 
E a mixórdia das telenovelas importadas, e outras a tentar imitar a porcarla que por cá se vão fazendo, que mais não fazem do que intoxicar o povo, desorganizar a vida familiar e desmobilizar as pessoas de outras actividades? 
E parece que os 'novos imperadore'• gostam do sistema: é preciso tapar a boca ao povo com coisinhas alienantes, não vá ele acordar, e ver que a Rei vai nu.

M. António.
Espinho Vareiro, 24 de junho de 1983