RECORDANDO O DR. PRATA


Faz 50 anos que, em 4 de Julho, o Dr. Ferreira Soares foi assassinado pela infame polícia política de Salazar. 
Não podemos deixar de assinalar o acontecimento, a bem de uma memória colectiva que alguns aprendizes de alquimistas em vão tentam fabricar na voragem dos tempos modernos e na miragem de fáceis protagonismos mediáticos. Precisamente porque assistimos a uma certa maioria que não hesita em propôr e apoiar a condecoração a PIDEs pelos «honrosos serviços à Pátria». Precisamente porque há gente, com certos créditos mas sem qualquer vergonha, que diz publicamente (1) que a PIDE obedecia ao Governo, (2) que Silva Pais, «homem honesto», mandava na PIDE, (3) que Gonçalves Rapazote, «pessoa de grande carácter», mandava no Silva Pais, (4) que Marcelo Caetano mandava no Gonçalves Rapazote, e (5) que «não se julgue que nessa época o país estava nas mãos de uma corja de bandidos». Mais um pouco e teríamos um ambiente orwelliano com esse rebotalho a exigir a canonização de Salazar. 

O MÉDICO DO POVO 

O Dr. Ferreira Soares teve a sina de pôr a medicina ao serviço do Povo. E, como isso não bastasse, era um acérrimo crítico da política de Salazar. Por isso «democraticamente» viveu na clandestinidade durante bastante tempo. Em situações de aperto, refugiava-se nas minas de Cassufas, na Igreja de Nogueira da Regedoura e até numa frondosa japoneira. O cerco da PIDE foi, porém, inexorável. 
Em 4 de Julho de 1942 chegaram a Espinho os PIDEs António Roquete e Laranjeira Coimbra, um deles disfarçado de mulher ferida. De conluio com o enfermeiro Henrique, que fazia os tratamentos aos doentes de Ferreira Soares, o taxista Brandão e Gabriel Fernando, que mais tarde cegou, dirigiram-se para casa do médico em Nogueira da Regedoura, para «curativos». Conseguindo iludir o cordão de segurança popular, bateram à porta. A irmã de Ferreira Soares abriu e, na presença da empregada, um dos agentes tirou de baixo da gabardina uma pistola-metrelhadora e disparou uma rajada no médico. Cândido Couto chegou a ver os PIDEs transportar o moribundo para o carro, o que lhe valeu ser mimoseado com dois tiros que felizmente não o atingiram. A caminho de Espinho, um dos agentes ainda disparou vários tiros sobre Ferreira Soares. 

14 BALAS 

Levado à clinica do Dr. Manuel Gomes de Almeida à Rua 8, disseram os PIDEs que tinham encontrado aquele indivíduo sozinho, ferido na estrada. Obviamente que o Dr. Manuel Gomes de Almeida percebeu tudo e disse «Não é para curar, é para passar a certidão de óbito!» E, peremptoriamente, expulsou-os. Examinou depois o cadáver e extraiu 14 balas. Já de madrugada, desabafou para pessoa muito chegada ter-lhe apetecido fazer o mesmo aos PIDEs. 
O acontecimento despoletou um movimento popular que culminou num processo crime interposto pela irmã de Ferreira Soares contra os dois agentes da PIDE. Apesar de ter deposto, a empregada, testemunha do crime, deixou de comparecer ao tribunal. As suas declarações foram consideradas infundadas e os PIDEs António Roquete e Laranjeira Coimbra ficaram impunes. A Bem da Nação de Salazar. 
Após o 25 de Abril, a Assembleia Municipal deliberou por unanimidade homenagear o Dr. Ferreira Soares atribuindo o seu nome à Rua 19. Uma placa toponímica foi colocada no ângulo daquela Rua com a Rua 8. Em Fevereiro de 1980 um agente da PSP interpelou um moço que, cumprindo ordens do proprietário do estabelecimento situado no ângulo daquelas ruas, retirava a placa, já semi-destruída. A Câmara deliberou substituir aquela e outras placas danificadas por novas. Algumas continuam. A de Ferreira Soares eclipsou-se... 

Sob uma japoneira ainda nova, a sepultura do Dr. Carlos F. Soares, Dr. Prata no cemitério de Nogueira. 

Manuel Alegre escreveu um poema em sua memória.* A célebre japoneira foi arrancada. Outras têm sido plantadas junto à sua campa rasa. Quem diz que as memórias não morrem de pé?

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 3 de julho de 1992

* O poema faz parte do livro O Canto e as Armas (1967) e chama-se "Romance de uma árvore à beira do caminho":

Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho.
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.
(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)
Mas quando vieram os embuçados
à procura de um médico em terras de Espinho
ninguém disse nada
sobre o homem escondido
naquela árvore à beira do caminho.
Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é a história de uma árvore
à beira do caminho.

Era noite cerrada
noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.
Era noite sem lua
noite de emboscada
noite de um homem não andar sozinho.
As bocas fecharam-se
ninguém contou nada.
Era noite de embuçados no caminho.
Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos:
seria sangue? Seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico
escondido naquela árvore à beira do caminho.
Era noite sem lua
noite de sangue
era noite de esperas no caminho
embuçados chegaram.
Embuçados partiram.
Procuravam um médico em terras de Espinho.
Já corre um mensageiro
para aquela árvore à beira do caminho.
Há embuçados.
Falaram dum ferido.
Mas o sangue que vimos era vinho.
Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(ai a noite sem lua
ai o sangue que tem a cor do vinho.)
Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram
nessa noite em Espinho.
E nunca mais o médico se escondeu
naquela árvore à beira do caminho.
Mas todos os anos na mesma noite
em que o sangue correra nessa aldeia de Espinho
mãos invisíveis vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.
De novo vieram os embuçados
de novo mataram em terras de Espinho.
Quando se foram
já não havia aquela árvore à beira do caminho.
Mas no dia seguinte
no mesmo sítio onde o médico se escondia
perto de Espinho
as mãos dos pobres vinham plantar
outra árvore à beira do caminho.


Pode ser ouvido aqui, lido pelo próprio Manuel Alegre.

OBS: O Dr. Ferreira Soares era tio-avô de Catarina Martins, do BE.