Concluído há mais de um ano, o novo Cine-Teatro S. Pedro continua a ver as portas fechadas, para tristeza do seu padroeiro. A solução do problema continua presa nas teias da lei. Há, porém, um dado novo a considerar. As eleições legislativas estão à porta. Não será, pois, de admirar se, por obra e graça de um qualquer golpe de teatro convenientemente orquestrado e sincronizado, se fizer coincidir a sua inauguração oficial com as vésperas das eleições. Patriótica e democraticamente.
FILME DO IMBRÓGLIO
1982 A Sociedade «Espinho Novo, Construções e Turismo, Lda.» (7 sócios, entre os quais Serafim Ribeiro, Ângelo Cardoso e Manuel Salgueiro) faz contrato (5.000 contos) com João Barbosa, proprietário do antigo Cine-Teatro. João Barbosa indemniza os trabalhadores. O cinema é fechado e demolido. A Sociedade apresenta projecto à CM. Dele fazem parte 26 habitações, 72 lojas, um CineTeatro com 750 lugares e 3 caves para estacionamento.
1984 A CM aprova o projecto. Inicia-se a construção. Estudos geológicos revelam, para além de espessa camada de xisto e granito, um enorme lençol de água (situado na vertical do actual canto esquerdo da entrada para a sala do cinema). A Sociedade abandona o projecto de construção da terceira cave para não ultrapassar os custos previstos. Moreira da Costa, arquitecto do empreendimento, não apresenta à CM, aditamento relativo a esta alteração. A construção continua.
1986 O aditamento de alteração ao projecto é apresentado à CM. Esta não responde no prazo de 60 dias. A Sociedade considera o facto como acordo tácito. Segundo informações orais da CM, o caso está para estudo, cujo parecer nunca chega, todavia, a ser comunicado à «Espinho Novo».
1987 Começam avender-se as habitações e as lojas. A vistoria da CM impugna a obra. Não são concedidos alvarás de habitabilidade. Não é possível acelebração de escrituras por parte dos compradores.
1988 «Espinho Novo» contacta Elsa Tavares, Presidente da CM em exercício, em substituição de Lito de Ameida. Propõe que o espaço de estacionamento perdido venha a ser compensado noutro prédio a construir pela Sociedade perto do Edifício S. Pedro. A CM exige fiança bancária de 8 mil contos como garantia.
1989 O executivo camarário muda e rejeita esta proposta. Ultimam-se os acabamentos da obra «Espinho Novo» propõe a venda do cinema por 350 mil contos à CM, que não responde.
JANEIRO 1990 As obras do Edifício S. Pedro. estão praticamente concluídas. As 26 habitações, essencialmente TO e Ti, estão todas vendidas a veraneantes, excepto uma que é comprada por residente. Apenas uma das 18 garagens é vendida a uma inquilina (preço por lugar: entre 685 e 1.500 contos). As 72 lojas estão também vendidas. Fala-se de prejuízos: sem alvarás de habitabilidade, sem escrituras, não há contratos de arrendamento. Contactado por «Espinho Vareiro», o vereador do CDS afirma que «a Câmara tem as suas culpas nesta situação.» A «Espinho Novo» pede autorização à CM relativa à alteração da utilização do salão do cinema para área afecta a actividades comerciais. O executivo camarário indefere. A instalação eléctrica do cinema está em fase de acabamento (20.000 contos). A sua qualidade acústica é garantida por placa de 10 cm de revestimento adequado. Está apetrechado para congressos e com equipamento para tradução simultânea em 4 línguas. Tem sistema de cortinas, no palco, por controlo remoto. Há 3 camarins colectivos. Na Rua 10 tem uma entrada para os artistas e 2 para os cenários. Na Rua 23 há uma saída do emergência através do lado esquerdo do palco. Custos totais do cinema: 100.000 contos.
FEVEREIRO 1990 A empresa proprietária do S. Pedro põe a questão em tribunal. As máquinas de projecção são instaladas. Fala-se em 30 de Março como data da sua inauguração, que está dependente da vistoria de técnicos da Secretaria de Estado da Cultura e da Direcção-Geral de Espectáculos e, claro, do alvará camarário. A «Espinho Novo» entabula conversações com duas empresas produtoras/distribuidoras cinematrográficas de Lisboa no sentido da exploração do S. Pedro.
MARÇO 1990 A CM confirma ao «Espinho Vareiro» que o Edifício S. Pedro ainda não tem registo predial nem registo notarial. Os Bombeiros Voluntários confirmam-nos que efectuaram apenas uma vistoria a uma loja. O proprietário desta confidencia-nos que foi uma aventura ter empenhado 11.000 contos na sua fracção em 1987. Para montar o negócio apenas exibira um documento comprovativo da compra e pagamento da respectiva fracção. Contactado por «Espinho Vareiro» à saída da AM de 5 de Março, Romeu Vitó, Presidente da Edilidade, responsabiliza os dois anteriores executivos camarários por não terem, em devido tempo, impedido o prosseguimento das obras face às disparidades encontradas pela fiscalização entre o projecto inicial e a obra efectuada. Garante que será « implacável» (sic). Em 11 de Março efectua-se uma importante reunião de compradores-proprietários. Chegam à nossa Redacção os rumores mais díspares. Ouve-se falar de eventuais pressões da administração da Solverde sobre a CM para a impugnação do projecto. Ouve-se dizer que alguém do executivo camarário terá proposto a oferta do Cine-Teatro em troca da rápida resolução do problema, talvez por a aplicação de uma multa de 200 contos não compensar a CM.
Frustrando todas as expectativas, a «Espinho Novo» dá o dito por não dito: 30 de Março é a data do fim das obras do S. Pedro, não a da sua inauguração.
Daqui para a frente avolumam-se as especulações, a que não é alheia a morosidade dos labirintos do contencioso.
S. PEDRO CAÇOU-ME EM VIVO
É assim que Serafim Ribeiro, sócio maioritário da «Espinho Novo» costuma desabafar ao referir-se aos anos de vida que todos estes problemas lhe tiraram. «Fomos emigrantes. Estivemos na Venezuela. Fizemos muitos negócios com ministérios venezuelanos. Nunca nos tinha acontecido uma coisa destas. Não queremos entrar em choque com ninguém. Queremos investir e não nos deixam. Não é cerceando vontades que se engrandece uma terra. Assim, sem incentivos, não dã vontade de investir.»
Durante quanto mais tempo iremos ver o S. Pedro fechado? As letras que o identificam mostram já adiantado estado de deterioração•.Por este andar, o restante está na iminência de lhe acontecer o mesmo. Até que surja um salvador. Por que preço?
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 21 de junh o de 1991