RECICLEM A IMAGEM
O mais desatento cidadão há muito sabe que o consumismo inflaciona o valor da embalagem em relação ao seu conteúdo. E quando esta estratégia invade o palco da política, os seus actores transformam-se, inconscientemente, em marionetas trágico-cómicas. Para gáudio do contribuinte, que, na ausência de alternativa, acaba invariavelmente por aplaudir. O pior é que o modelo importado do estrangeiro há muito se esgotou. Por cá, parecem apenas restar duas hipóteses: a descoberta serôdia e a reciclagem.
Enganou-se redondamente quem tardiamente sonhou que para promover a imagem do Conselho bastava encomendar à socapa projectos de malinhas e caixinhas de lápis pintadinhas de verde e amarelo. Idem para quem sonhou destruir a Piscina e no local implantar um aquasplash. Idem para quem sonhou transformar o aeródromo de Paramos em aeroporto alternativo a Pedras Rubras. Idem para quem sonhou promover os altos de uma esquina a instituto superior, pintado a tartaruguinha branca e janelas verdes. Idem para quem sonhou promover a imagem da Cidade permitindo o bloqueamento de ruas com taipais de obras, algumas vezes ainda não licenciadas. Idem para quem sonhou colocar placas identificadoras de Espinho com o brasão da germinação e estrelinhas douradas em fundo azul. Idem para quem sonhou com a projecção da imagem de Espinho em Portugal, na Europa, no Brasil e em Macau e apenas conseguiu eliminar as ratazanas com a poluição da Ribeira de Silvalde. Idem para quem prometeu habitações sociais e acabou por as vender em hasta pública. Idem para quem só há pouco mandou executar as obras do novo parque de estacionamento subterrâneo com a época balnear à porta e as eleições á vista.
Todo este manancial de descobertas serôdias não parece, como vimos, ter contribuído substancialmente para o tal (deles) sonho de promoção. E, como os cursos de formação estão a dar e têm catapultado meros esquiços a mui sólidos projectos, humildemente sugerimos: reciclem-se!
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 25 de junho de 1993