TASCA PIROLITO (65)


Querido Primo,

Obrigado pelas tuas duas cartinhas. Gostei imenso de as ler. Há bastante tempo que não escrevias para mim umas cartas assim tão saborosas. Sabes o que eu quero dizer!
Pois olha, a Tia Bizantina não esteve lá muito bem. Mas sossega, que ela já recuperou. Foram enxaquecas, foram dores de costas, eu sei lá que mais. Ela até deixou de ir ao seu médico. Experimentou um chiropratic - acho que é isso que ele se chama - e diz que não quer outra coisa. E nada de remédios, tudo ao natural. Aliás por aqui eles andam agora muito na moda. Os oficiais é que não gostam muito da brincadeira porque, pelos vistos, andam a perder a clientela e muito dolar.
Cá por Filadélfia a coisa que deu mais que falar nos últimos tempos foi um caso de racismo. Aconteceu lá para cima, para a Broard Street, à esquerda. Uma mulher de cor viu-se obrigada a sair da casa que há pouco tinha comprado. Pudera, foram tantas as provocações dos racistas, pintaram-lhe palavras feias nas paredes da casa, fizeram-lhe telefonemas anónimos a chamar-lhe nomes e a ameaçar que raptavam as filhas, uma tristeza. Ela também não poupou a Polícia e o Mayor. Quando saiu, à porta estavam televisões de vários canais e ela atribui culpas às autoridades por nada terem feito, sabendo de tudo porque ela se tinha queixado várias vezes. 

Nesse dia, à noite, houve debate no canal 6, depois das notícias. Um deles, por sinal um político eleito pela comunidade Portuguesa, disse que agora era a vez dos negros, mas os hispânicos não estavam livres do racismo. Denunciou que tem havido casos de racismo contra Portugueses, que nos chamam «olive», azeitona. Aí como estão as coisas? Ainda não há casos destes, pois não? Outra coisa de que as pessoas falaram muito foi do vandalismo contra candeeiros no Green Common. Tudo tão bem arranjadinho, com tanto dinheiro de nós todos, e partiram-nos todos. Não sei para quê. Eles vão namorar para lá à noitinha, e estacionam virados para o rio. Podiam namorar à vontade, não era preciso partirem os candeeiros. Eu não sei onde vamos parar. Já há pessoas que não confiam nem sequer nos candeeiros! E pensar que a iluminação foi reforçada lá naqueles sítio depois de uma criança, à noite, andar a brincar e não ter visto onde punha o pé, ter escorregado, ter caído ao rio e ter-se afogado. Para aí há também pessoas que fazem coisas destas? Não acredito que haja. Parece que aí vocês são mais atrasados mas também têm menos vandalismo e muito menos vio lência. Pelo menos é o que a televisão diz. 
Outra coisa que foi falada foi a mudança de gostos dos nossos jovens. Dizem que eles já não andam muito pelos malls, pelos centros comerciais. Dizem que estão fartos de serem filmados por câmaras escondidas e de serem observados com desconfiança por seguranças. Dizem também que já não dá para namorar à vontade porque os pais também andam por lá. 
Parece que agora a moda é a lojinha da esquina. Eis uma coisa que há algum tempo me provocava curiosidade. Aqui na rua abriram duas gelatarias e o café ao fundo da rua fez obras, muito progresso em pouco tempo, com tanta crise. Deve ser por isso, das novas modas da juventude.  E por aí, a juventude ainda gosta dos malls? 
E, para acabar, outra coisa não muito boa: as Nações Unidas estão falidas, nem sequer há dinheiro para fotocópias, papel e lápis para os senhores comissários. Já despediram 700 funcionários, imagina. É uma triste coincidência isto acontecer com o nosso Freitas lá dentro... 
Bem, por agora fico por aqui. Diverte-te e vai escrevendo quando puderes. Um abraço e beijinhos desta tua Prima que muito te estima, 
Alienação
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 24 de maio de 1996