TASCA PIROLITO (66)


Cara Alienação, 
Foi muito bom ler a tua última cartinha. Demoraste a escrever, mas mandaste muitas novidades. Assim é que é. Até me senti bem ao pé de ti, e, claro, do resto da família e dos amigos. Espero que estejam todos muito bem. 
Pois por cá aconteceu muita coisa, e eu até nem sei bem por onde começar. Primeiro, devo dizer que infelizmente por cá também já vai havendo gente que, para namorar ao pôr do sol e à noitinha, tem que primeiro partir todos os candeeiros que incomodam. Todas as cautelas são poucas, mesmo para gente de fora. A minha vizinha, a D. Viperina, que, como sabes, anda sempre muito bem informada sobre tudo, diz-me que os de cá não fazem isso por cá. Fazem noutros lados e os de fora que se queixem como a gente se queixa deles. 
Uma coisa, que deixou muita gente revoltada e triste foi a morte de um adepto do Sporting morto por um very light lançado por um membro de uma das claques do Benfica. Tanta segurança para nada. Parece que já se tornou normal fazer a vista grossa— uma expressão idiomática que não vem no dicionário e que aprendi com a D. Viperina— e deixar entrar pessoas para os estádios com foguetes e outras coisas que fazem fumo e fogo colorido. Se o very light tivesse ido parar à bancada onde estava o Presidente da República e o Primeiro Ministro é que havia de ser bonito! Outra coisa ainda pior foi um guarda que, durante o interrogatório a um preso, perdeu o controlo e matou o preso a tiro. Para disfarçar, e com a alegada ajuda de colegas, decapitou o preso e foi pôr a cabeça num lado e o corpo noutro. Mais um caso que, de certo, vai parar à Amnistia, diz a D. Viperina, que é para os de lá de fora não andarem a dizer que Portugal é um «país de brandos costumes». 
Um outro assunto que tem dado que falar é o governo ter feito com que o dinheiro das apostas do Totobola vá direitinho e inteirinho para os clubes de futebol pagarem as dívidas ao fisco. Coitados, eu até tinha pena deles, especialmente dos dirigentes. Sempre a dizer que faziám tantos sacrifícios, que não ganhavam nada, que todo o dinheiro era para os treinadores e para os jogadores. Mas até há pouco tempo alguns falavam tão grosso e tão alto que eu pensava que não deviam nada a ninguém. Enganei-me. O governo descobriu que eles devem milhões de contos ao fisco e à segurança social. Mas agora, com este frete do governo, vão poder pagar as dívidas. Nas calmas. 
O pior é que os patrões de muitas empresas com dívidas dizem que também prestam um serviço importante à pátria e que também querem os mesmos benefícios. No meio de tudo isto parece que o bossa das Finanças, o tal da orelha ratada como lhe chama a D. Viperina, não foi ouvido nem achado, — outra expressão idiomática que aprendi recentemente — e agora diz que se vai embora, que está farto de ser palhaço. 
Também gostei de ver o Kohl gordo da Alemanha e o Guterres dialogante a fazerem as honras cá da casa a um fabricante de carros alemão e a um fabricante de componentes electrónicos também alemão. E a palhaçada de alguns presidentes de câmara a dizerem que os seus municípios é que são os melhores para o tal do jeitoso. Diz a D. Viperina que isso só quer dizer uma coisa se os alemães vieram cá cheirar, é porque isto por cá está melhor do que na Ásia. 
Finalmente, e segundo a D. Viperina, a bolsa de valores das medalhas está a sofrer uma forte desvalorização por cá. Desde que o antigo Presidente da República se pôs a condecorar e a medalhar pessoas a torto e a direito, todos os Presidentes de Câmara andam a fazer o mesmo e alguns a ver se medalham mais que o vizinho. Resultado, diz a D. Viperina, já há muita gente que não liga nada a isso, e que já há quem ande a fazer apostas de quem serão os próximos medalhados. 
Bem é tudo por agora. Até Julho. Já ando a preparar a viagem e as férias até aí. Ando cheio de saudades vossas. Até lá, muitas felicidades. Cumprimentos àTia Bizantina e aos amigos. 
O Primo que te estima muito, 
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 7 de junho de 1996