Caro Primo,
Espero que estejas bom. Sim, porque sabemos que quando vem o calor tens problemas. Pelo menos aqui em Filadélfia costumavas ter. Talvez aí não sofras tanto, porque deve ser menos húmido, sempre estás ao pé da Espanha. Imagina tu que até o Alasca está a arder!
Gostámos imenso da tua carta cheia de novidades. É engraçado como vocês aí também já têm malandros a partir os candeeiros dos parques para alguns espertos poderem namorar à vontade nos carros. Por outro lado, isso de se matar uma pessoa num estádio, durante um jogo de futebol, com um very light, é muito esquisito. Eu contei à família, e ficou toda a gente triste. Os nossos vizinhos e amigos nem querem acreditar que tenha acontecido uma coisa dessas num país tão pequenino e tão respeitador e católico como Portugal.
E depois, essa de fazer uma tourada com touros de morte para arranjar dinheiro para a família do tal que foi morto pelo very light também é uma ideia de quem não tem o seu juízo todo. Mais valia estar quieto.
Outra coisa que nos impressionou bastante foi essa dos guardas andarem a bater nos presos e a suicidarem-se. Parece impossível tudo isso estar a acontecer num país tão pequenino, tão europeu, tão respeitador como Portugal. Quanto à visita do alemão gordo, não nos admiramos de o Kohl ter ido aí a Portugal fazer o frete a marcas alemãs. Aqui a crise também vai grande. O nosso presidente está farto de fazer fretes semelhantes. Vocês nem sabem, porque quem manda cá não deixa certas notícias chegar aí. Aqui toda a gente sabe que há trabalho infantil, que há crianças a trabalhar 30 e mais horas por semana, a receber 35 cents à hora— e no mínimo dos mínimos a hora, fugindo aos impostos, anda pelas 4 dolas e meia. A maior parte dessas crianças são de famílias asiáticas, estás a ver. E depois nós os americanos é que somos os campeões dos direitos humanos! Deus nos perdoe. Devíamos olhar primeiro para nós, tratar dos nossos problemas e não andar para aí a fingir que somos os maiores, a exigir umas coisas a alguns países e a fazer a vista grossa a coisas que outros fazem.
Um grande problema que tem dado muito que falar nas últimas semanas é a queima de trinta e tal igrejas negras lá para o Sul, nas Carolinas, na Luisiana, no Mississipi, no Texas, e no Tennessee. O nosso Presidente já apareceu a rezar numa igreja dos negros, já há gente a dizer que é tudo obra do, com licença, KKK, outros dizem que a coisa não é assim tão simples. Uma desgraça e uma vergonha.
Outra questão já tradicional nesta época é o racionamento da água. O nosso Mayor proibiu a rega dos jardins e parques públicos e a lavagem de carros. A água é pouca e há que poupar. Ontem, no noticiário das seis no Canal 6, mostraram uma pessoa lá para os lados de MacKay, a denunciar um vizinho que estava a lavar o carro. Veio a polícia e multou o lavador! Ao ponto a que chegamos, imagina tu. Aí as Câmaras também tomam decisões destas pelo Verão? E as pessoas acatam as regras? Gostava que me dissesses.
Também gostava que nos dissesses qual é o dia de Portugal. Há uma comissão de Portugueses que gostava de fazer uma festa e não sabe a que se agarrar. Uns dizem que é o 1.º de Dezembro, outros dizem que é o 25 de Abril, outros dizem que é o 10 de Junho, outros dizem que é o 5 de Outubro. Que raio de confusão. Pelo menos aqui temos um dia que toda a gente respeita, é o 4 de Julho, como sabes. Porque é que aí não se entendem numa única data? Ou por já estarem integrados na União Europeia isso já não vos interessa nem diz nada? Fala com a tua vizinha, pergunta-lhe. Talvez ela saiba dar alguma ajuda para a gente poder fazer qualquer coisa cá.
Bem, por agora é tudo. Recomendações do resto da família e vizinhos.
Um abraço da Prima que te estima,
Alienação.
Octávio Lima
Espinhio Vareiro, 21 de junho de 1996