TASCA PIROLITO (68)


Cara Alienação,

Obrigado pela tua carta cheia de novidades. Gostei de saberque estavatudo bem. 
Sobre trabalho infantil na América, foi uma grande surpresa para mim. Nunca imaginei que se chegasse a esse ponto, e logo na América, campeã mundial dos direitos humanos. Já tinha ouvido falar de trabalho infantil cá, de miúdos que não iam à Escola e andavam a partir pedra para calçada lá para o norte, para os lados de Paredes ou Penafiel. Parece que foi um jornal inglês que publicou há anos um artigo sobre isso, com fotografias e tudo. Disse- me a D. Viperina que até houve uma espécie de crise diplomática entre Portugal e Reino Unido por causa disso. 
A queima de igrejas negras no deep south assustou-me um bocado. Assim tantas e logo a maior parte delas em sítios isolados. A princípio pensei que fossem igrejas em áreas urbanas, densamente povoadas, mas não, elas foram todas incendiadas em sítios isolados. Ouvi dizer que há por aí vestígios de especulação de terrenos onde essas igrejas estavam. 
Aqui também houve uns levantamentos populares contra a IURD, que é uma seita que se tem tornado popular em certos meios, vá lá saber-se porquê. E quem entra para lá tem que dar dez por cento do seu salário. O problema é que não há prova de se ter dado e, por isso, a dádiva não pode contar para deduzir nos impostos. Por outro lado, eles também não têm prova de ter recebido e, por isso, também não pagam impostos de nada. Uma alegria. Pois segue-se que houve presidentes de câmaras a mandar expulsá-los de centros comerciais com o argumento que estavam a ocupar áreas construídas para outros fins que não o do culto religioso. Que não era digno nem de direito usar para práticas religiosas garagens, parques subterrâneos e outras áreas de centros comerciais e até de cinemas há muito tempo falidos e fechados. As televisões apareceram e eles fizeram cenas de histerismo que se fosse aí vocês haviam de fazer uns bons filmes. Mas enquanto as autoridades não actuaram, houve grupos de pessoas exaltadas que atiraram pedras, rebentaram com portas, partiram mobiliário, e até tentaram incendiar um ou outro centro de culto. Agora anda tudo mais sossegado. 
Racionamento de água é coisa que não existe por cá. A Câmara rega muito bem os seus jardins, que é para haver mais turistas. Como os turistas gostam de ver tudo verdinho, há que regar tudo e bem. Pois claro. Durante as últimas segundas-feiras, que é dia de grande movimento porque é dia de feira semanal, tem havido um tractor cisterna que rega o separador central da nossa avenida, mesmo à hora do meio dia que é para refrescar as coitadas das plantas, flores e relva que de outra maneira esturricavam se não fosse a generosidade dos jardineiros. 
Também não há regulamentos para a lavagem de carros nos jardins das pessoas nem na rua. Sim, não te espantes se eu te disser que aqui as pessoas lavam os seus carros em plena rua. Arranjam umas mangueiras compridas, ligam-nas à torneira, esticam a mangueira pela rua fora e lavam o carro que está do outro lado da rua. E tu pensas que interrompem a lavagem quando uma pessoa passa? Estás enganada. Continuam, e alguns até parece que apertam mais a ponta da mangueira para dar mais pressão à água. 
Quanto ao dia de Portugal ou ao dia em que os Portugueses parecem respeitar mais ou comemorar com mais vontade, acho que é o S. João, de 23 para 24 de Junho. A D. Viperina diz que é esse dia, que já houve outros, mas que, com o correr do tempo e com o mudar das políticas, esses dias foram-se esvaziando. Agora o S. João é sempre um dia em cheio, de peso, com as pesoas a martelarem-se umas às outras com martelos de plástico e de espuma, a comprar manjericos e alhos porros, a comer sardinhas e beber vinho e a dançar até de madrugada. Alguns até fazem questão de fazer directas ou de ir começar o dia seguinte na praia. 
É tudo por agora. Um grande abraço para todos, recomendações aos vizinhos e amigos. 
O Primo que te estima, 
Speakeasy
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 28 de junho de 1996