«Recordo o Pai que nas noites de Natal sentava o seu filho no colo e lhe contava histórias lindas, com palavras repletas de calor humano. Só muito mais tarde verifiquei que essas palavras eram páginas inteiras do livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo.»
Assim começou Jorge Ferreira Soares, filho do Dr. Ferreira Soares, ao dirigir-se às cerca de 300 pessoas presentes na romagem à campa do Pai no passado dia 4 de Julho, 50º aniversário do seu assassinato pela polícia política de Salazar.
E continuou: «Recordo o médico que, quer de dia quer de noite, estava ao serviço dos seus doentes, ia visitá-los e deixava na escrevaninha de cada um dinheiro para matar a fome, dinheiro para comprar remédios.»
«Recordo o homem político e comunista que organizou em Nogueira da Regedoura cursos nocturnos para analfabetos, que organizava nos cemitérios quer de Nogueira quer das freguesias vizinhas verdadeiros comícios sempre que morria um amigo e tinha a oportunidade de chamar a atenção para a falta quer de assitência médica quer de regalias sociais.»
«Recordo as últimas palavras que ele pronunciou, "Perdoai-lhes, que não sabem o que fazem". Ele sabia que os verdadeiros culpados, os verdadeiros assassinos, estavam no Terreiro do Paço e tinham como chefe o Salazar.»
E concluiu: «Julgava o poder constituído que soltando feras humanas conseguia acabar com os Ferreiras Soares que existiam no País. Mas estes homens, homens de corpo inteiro, nunca mais morrem Permanecem sempre nos nossos corações e hão- de continuar pela vida fora.»
Depois da intervenção de Amaro Francisco, da Concelhia do PCP da Feira, falou Álvaro Cunhal: «Nessa mesma altura eu estava aqui pelo Norte. Posso testemunhar esse acontecimento e a repercussão que teve nessa época.»
«Dias antes do seu assassinato, tinha sido preso o Comité Regional do PCP do Porto. Tinha escapado dessas prisões António Carlos Ferreira Soares. Esperou-se no Porto que ele aparecesse e eíe não apareceu e era necessário ver o que tinha acontecido. Fiquei encarregado de vir a esta região.
E foi através dos pescadores de Espinho que consegui saber que a Polícia tinha transportado um ferido grave para o hospital de Espinho. Depois soube-se que esse ferido grave era o nosso camarada.»
«Interessa hoje recordar este acontecimento. Não só porque um português foi abatido a tiro dentro da sua própria casa quando prestava assistência médica aos pobres, mas também porque é um exemplo típico da época em que se vivia. Não se podia falar, não se podia reunir, não se podia protestar, não se podia escrever, e qualquer pessoa que ousava defrontar o regime fascista então existente era sujeita a perseguições, a prisões, a torturas, a condenações e até assassinatos como aconteceu com o Dr. Ferreira Soares.»
Tal como à noite, no salão da Piscina Solário Atlântico, Álvaro Cunhal denunciou ofensivas contra as liberdades e os direitos dos cidadãos, «através da governamentalização, da fuga à fiscalização da acção governativa» e da atribuição de pensões a ex-PIDEs enquanto o governo negava pensão a um herói do 25 de Abril, Salgueiro Maia.
Álvaro Cunhal concluiu apelando «para que não adormeçam perante a liberdade conquistada e saibam defender os direitos e liberdades fundamentais.»
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 10 de julho de 1992