A VASSOURA (24)

A Grande Farra


Com uma pompa apropriada para festejar os grandes acontecimentos, efectuou-se no dia 14 do corrente mês a comemoração do 2.° aniversário da inauguração da primeira metade da penitenciária da Solventre, obra de grande traço arquitectónico a nível das suas congenéres. de que a de Custóias e Alcoentre são rivais pelas parecenças de traço, muito embora os arquitectos tenham sido outros. 
Cerca de 250 contos de mariscos e um bolo que teve que vir de camioneta por não caber na forguneta, dão uma pequena ideia do requinte da comesaina. 
Nós, varredores indesejáveis, não tivemos convite para tão cultural manifestação. Mas outro tanto sucedeu aos accionistas de segunda, teceira e da promoção. Esses, insignes ficantes, terão que esperar para qualquer noite fria de Dezembro para ir de abalada até à Aguda, metidos em autocarros, levar uma empazinadela de bacalhau (bem bom, bem bom) regado com vinho de garrafão e ao fim dar graças à administração presidiária por se ter lembrado que eles também são gente. 
Mas deixemos o futuro, que só o Deus pertence, e vamos ao que interessa. Além dos accionistas de primeira, também dìversas autoridades locais estiveram presentes, o que deu um aspecto mais categorizado à comemoração aniversariante. Nem o Governador Civil, nem o Presidente da Câmara puderam estar presentes por actividades políticas inadiáveis, o que consolou os chefes que não tiveram que estar com os mariscos aos saltos dentro do papo por aturar tão indesejáveis presenças, só convidadas para não parecer mal... 
A imprensa, de categoria note-se, também teve os seus representantes ali, para depois fazer estardalhaço nos seus jornais e dar força à prorrogação até ao ano 2005. 
Depois duns aperitivos tomados num reservado, os convivas desceram à mais moderna boite da Europa sem ar condicionado (ainda! chiça!) onde o calor incomodou muita gente. O Pauleta e o À la minuta, que representavam o boletim da penitenciária, (o limpa valetas estava de folga) ainda desceram mais. Foram parar à cantina para roer uns ossitos de chicha assada sem batatinhas, depois de esperarem duas horas. 
Às «bocas», falou o Amadeu Perdigão. Bem comido e bebido (anda a preparar-se para cabeça de lista do partido) o versátil advogado levantou-se, arrotou-se, pigarreou, tomou aqueles ares importantes que todos lhe conhecemos, e que não têm importância nenhuma, e desfiou uma arenga que já não liga nada com as arengas que soltava antes de ajudar a apanhar a concessão. Umas baboseiras demagógicas, entremeadas com uns arrotos sobre certa imprensa local que só está a dizer as verdades acerca da mafiosa bichesa que pulula pelos mesmos sítios que ele calcorreia. O ar avinhado que exibia, motivado pela falta do ar condicionado, note-se, dava-lhe um ar de grande importância, de que ele muito se goza mas que não agrada nem a gregos nem a troianos. 
Depois o Menino do Coro sacou do papel e leu, leu e leu (sem beber água) as coisas feitas e por fazer. Um chorrilho de douradas pírulas que todos os accionistas de primeira aplaudiram emocionados. 
Depois foi apreciar as variedades. Uns pernames do ballet, uns choradinhos dos cantantes...

Espinho Vareiro, 28 de agosto de 1981