O trágico/cómico duma instituição respeitável
Independentemente da resposta que o sr. Marçal Duarte ou a anterior Mesa julgue dever dar ao comunicado dos mesários da Misericórdia de Espinho, publicado no nosso último número. «ESPINHO VAREIRO», visado no mesmo, não pode deixar de, para já, tecer as seguintes considerações:
Lembramos aos Senhores Mesários em exercício que, por enquanto, vivemos num País livre e democrático, onde os cidadãos e a imprensa têm a liberdade dc formular juízos de valor sobre os acontecimentos e os factos que acontecem, independentemente de serem considerados positivos ou negativos. Daí que a Misericórdia não é uma Instituição acima ou fora da sociedade em que se integra. «ESPINHO VAREIRO» intervirá sempre nos acontecimentos que interessam à comunidade espinhenses com independência. Não critica facilmente nem bajula gratuitamente. Não estamos ao serviço de ninguém, mas tão somente dos Inteteresses de Espinho.
Ao serviço da Misericórdia parece estar um semanário local, que de maneira sectária, propagandisticamente, e quantas vezes falseadora, é o porta-voz fiel de determinados interesses, cujos objectivos, em nossa opinião, muitas vezes não são coincidentes com os interesses da população do nosso concelho. Dai que não colha, e constitua uma posição de fraqueza, pedirem para que não falemos dela.
Senhores Mesários, quem não deve não teme. Ora os Mesários começaram por dizer que representam a MESA ADMINISTRATIVA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE ESPINHO para, no parágrafo seguinte, confessar que «entendeu o snr. Provedor dr. Amadeu Morais, que a falta de ética, de verdade, de civismo e de senso que a entrevista revela o impediam e à instituição de responder...» No entanto, no ponto 1, confessam que o seu provedor, «sempre actuou em perfeita consonância com a Mesa» e a seguir «Querem, mesmo, deixar bem vincado que se solidarizam com ele em todos os seus actos...» Não entendemos porque razão desta feita não se solidarizaram, já que não «actuou em perfeita consonância com a Mesa». Enfim, misturas...
Outro motivo de estupefacção é escreverem 18 (dezoito) vezes o nome do snr. Dr. Amadeu Morais e 5 (cinco) o de Provedor, afinal a mesma pessoa, o que totaliza 23 vezes, repetição que denota a preocupação aflitiva de salvar a conduta do senhor provedor.
Também não dá para entender como é que os senhores mesários afirmam que «Nunca o Sr. Dr. Amadeu Morais chamou a si quaisquer louros na realização da obra que a Misericórdia tem em curso e do Lar que acabou de construir, sempre a Mesa em todas as suas actuações...» Concerteza que não leram o «Defesa de Espinho», de que é proprietária maioritária a exploradora da zona de jogo desta cidade. Aí, o snr. Morais, num comunicado à população e numa entrevista concedida «por bondade» é alvo das mais destemperadas adjectivações por parte do jornal. Até «pai do Lar» foi chamado... E não alijou a paternidade!
E nos tais discursos que proferiu aquando da inauguração foi de tal jeito a verborreia, que o snr. dr. Soares Mota, presente na assistência, viu-se compelido a intervir para apontar Antenor Ferreira da Costa, um homem da Misericórdia, e o Juiz Conselheiro Mário Leal, que iniciou a sua intervenção a seguir ao snr. Morais, a dizer «que nunca precisou de lamber as botas a ninguém». E houve entre os presentes quem nem assistisse a toda a cerimónia e não fosse ao repasto oferecido pela exploradora da zona de jogo.
Portanto os tais discursos foram um exagero de «solidariedade» para com os seus colegas de Mesa que, convenhamos, tem no mesário José Domingues Oliveira um esforçado colaborador, elo de ligação do snr. Morais a quem visita no seu escritório como ele tanto aprecia.
A Mesa não convidou a Câmara, nem a imprensa local que não lhe é subserviente. A Câmara deu 9.000 contos, e ajardinou e colectou os exteriores do Lar. É pois muito estranho que tenham convidado individualmente os vereadores menos o Sr. José Carvalho da Fonseca.
APROVEITAMENTO DA INAUGURAÇÃO
É para nós óbvio que a inauguração do Lar da Terceira Idade mais não foi do que um acto propagandístico de e para algumas pessoas. Aproveitou-se a inauguração de uma necessária e louvável realização para, mais uma vez, exorbitar e exagerar no culto a determinadas pessoas, que mais não fizeram que cumprir um dever, satisfazer uma obrigação. Para além da vergonha do não convite institucional à Câmara Municipal de Espinho que também contribuiu de maneira satisfatória, mais não fazendo que responder a uma legítima ajuda solicitada. Para além do não convite para a Mesa de honra, ao snr. Secretário de Estado do Trabalho que se encontrava presente e foi pura e simplesmente ignorado, talvez por não navegar nas águas políticas do snr. Provedor.
Há, snr.s Mesários, uma questão de fundo que não pode nem deve ser escamoteada: trata-se de o snr. Manuel Violas ter contribuido pessoalmente com dois mil setecentos e cinquenta contos. O restante, sem dúvida significat ivo, foi a contribuição da Solverde.
Importa aqui, lembrar aos snr.s que a Solverde foi constituída para concorrer à exploração da zona de jogo de Espinho com o objectivo de com os elevados lucros que tal exploração proporciona, contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural do nosso concelho. O movimento de adesão de muitos espinhenses que se esforçaram para que a Solverde fosse uma realidade, tinha por objecti o não proporcionar a um cidadão a discricionalidade de fazer o que muito bem entende, mas sim aproveitar os chorudos lucros de uma actividade controversa, e que é a causa de inúmeros problemas sociais, para devolver a essa mesma sociedade, sob formas diversas, os créditos de tal actividade.
E, snr.s Mesários, de acordo com os estatutos e os fins para que a Solverde foi criada, não se compreenderia nem se aceitari no plano moral, que ela não apoiasse substancialmente uma obra de tipo da do Lar dos Pedregais. Portanto, o apoio deve ser entend ido como um dever e uma obrigação de uma entidade que afinal, quando se constituiu, já prefigurava e prometia tal comportamento. E grave seria se os apoios dependessem, e qualquer circunstância, das pessoas que eventualmente e em cada momento, se encontrem à frente das instituições. Os homens passam, as obras ficam.
E, Srs Mesários, é necessário, distinguir o conteúdo do continente. A não ser assim estaríamos, não num País civilizado, mas sim num qualquer país das bananas, em que homens do dinheiro põem e dispõem, escolhem quem quer, acabam, afinal, por imporem à sociedade que é de todos quer seja atitudes e opções e determinar o «modus vivendi » de todos. A so c edade é de todos quer sejam pobres, ricos, remediados, analfabetos, cultos, independentemente da sua raça, culto ou estatuto social. Não é como uma empresa em que o proprietário tem o poder absoluto e determina tudo o que s passa a seu bel-prazer. Ao colocarem-se estátuas, por tudo e por nada, ao aceitarmos que imperativos sociais e morais se transformem em dádivas; ao considerarmos que imperiosas obrigações para com a soc iedade sejam consideradas como manifestações só de boa vontade e altruísmo social, estamos a desvirtuar princípios, a promover tão só o egoísmo, o poder abso luto, a arbitrariedade, em detrimento da solidariedade social e da preocupação permanente e seriamente assumida para com o próximo que da nossa ajuda necessita.
Não se pretende com isto dizer que o apoio oferecido pelo snr. Violas seja dispiciendo e não mereça realce. Não é disso que se trata. Do que se trata é que pensamos que o realce deve ser considerado na exacta proporção das suas obrigações morais, sociais e éticas, enquanto presidente e maior accionista da Solverde e enquanto homem possidente. É que na exacta proporção dos meios, talvez outros existem que mais tenham oferecido para esta obra sem estar à espera de qualquer especial promoção ou referência. Concerteza que o fizeram pensando, única e simplesmente, em materializar uma atitude que as suas consciências lhe determinaram como imperativo. Concerteza que procuraram satisfazer um conjunto de princípios justificativos e apolíticos dos motivos em que radi a a acção voluntária das pessoas. Sem espalhafato. Sem esperar nada. Movidos só pela sua formação cultural e moral, por aquilo que, talvez pensam, constitui um modo de estar no mundo e conceber a vida.
O DIREITO DE INTERVIR
Quanto a pedirem para não falarmos na Misericórdia, queremos deixar bem claro o seguinte: «ESPINHO VAREIRO» não abdicaa do direito de intervir na vida colectiva da cidade e do concelho em circunstân cia alguma. Como é de Lei, e se não o fosse era igual, tem as suas colunas à disposição de quem quer que seja, desde que nãoi seja para fazer alarde de partidos políticos, a quem cabe usar este jornal para fins político partidários.
Nestas circunstâncias, a Mesa da Misericórdia usou dum direito que, bem vista a Lei, não ti nha direito, mas que não negamos. Mas queremos deixar bem expresso que entendemos que a Misericórdia não é um clube de meia dúzia de Irmãos que eventualmente tem a seu cargo a tarefa de administrar, enquanto em funções, o seu património e lutar pelo seu engrandecimento.
A Misericórdia foi fundada há dezenas de anos, e ao longo do tempo de actividade muitos espiosnhenses contribuiram com donativos e colaboração para o seu e funcionamento. Cortejos de oferendas, donativos vários e valiosos, colaboração graciosa de clínicos e muitos espinhenses anónimos. E construiu o Hospital que muito honra a cidade e as suas gentes. A A Mesa, e o snr. Amadeu, que não pensem com os pés e que e orem, para não caírem na tentação de, publicamente por escrito, e apontar pseudo-escândalos, delatar as antipatias do snr. Violas pelo snr. Marçal Duarte, e caírem na «falta de ética, de verdade de civismo e de senso».
E por falar no snr. Violas, relembramos que a sua contribuição de 2.725.450$00, relativa a um dividendo de acções da Solverde num ano, nada tem de especial comparado com o valor dos terrenos doados, o subsídio da Câmara de 9.000 contos, o subsídio de 30 mil contos do Centro de Segurança Social, o projecto do Arq. Jerónimo Reis, que só, e para que conste, custou o dinheiro relativo a despesas com materiais e desenhadores, e de outras contribuições.
O subsídio de 50 mil contos da Solverde insere-se na obrigação de minorar os custos sociais que a exploração da zona de jogo acarreta. Ademais a Solverde subsidiou o Sporting de Espinho em 53 mil contos, a Rampa da Falperra em mais de 66 mil, a Marina de Leça em 28 mil e ainda mais umas notas para o Furadouro e uns Clubes de Futebol minhotos, etc., etc.
Para quem ganha milhões à custa do jogo, minorar com uns subsídios as misérias sociais da zona não tem nada de especial e até serve para propagandear (como se lê) benemerências, à primeira vista extraordinárias, e fazer do snr. Amadeu o «pai do Lar». Não nos podemos deixar levar por aparências douradas, senhores Mesários, nem devemos vestir a pele de quem fica atrás da porta. Os interesses das populações do concelho têm que ser defendidos enquanto houver razões.
E podem os snr.s Merários ficarem cientes que «Espinho Vareiro», apesar de boicotes de toda a ordem que lhe têm sido atirados, continuará, corajosa e intransigentemente a defender os verdadeiros interesses de Espinho, estimulado por provas de solidariedade e amizade da maioria esmagadora da população do concelho, traduzidas nas mais diversas ajudas morais e materiais. Só uma minoria, obviamente comprometida, não nos apoia e tudo têm feito para nos impor o silêncio dos traidores. Nunca o conseguirá, porque, não viram ainda que a sua aparente preponderância só é devida à dependência de agregados familiares sem alternativas para sobreviver, como já aconteceu, dentro das portas dos mandões, dezenas de vezes. E será bom que as oportunidades do dente por dente não surjam por aí um dia...
Espinho Vareiro, 6 de setembro de 1985